História ℰ
Cultura
História ℰ
Cultura
# Tarcísio confunde lealdade a Bolsonaro com mediocridade. Josias de Souza (Uol)
# Trump 2.0 e as reconfigurações da direita. Corey Robin (IHU)
Os descaminhos e a desorientação da política comercial externa do Brasil em meio ao tumulto desencadeado por Trump. Entrevista a Antonio Martins e Glauco Faria.
# Substack, Outras Palavras
Intermitências
# Poderá a Internet gerar uma recessão global? Paul Krugman (Outras Palavras)
# Jeremy Corbin desafia o sistema mais uma vez Marcus Barnett (Outras Palavras)
# Como a internet se tornou uma arma contra as mulheres negras na política. Luyara Franco (Le Monde)
# Nós sabemos que país queremos ser? Crisdias (Boa noite internet)
# Refém de um clã, Brasil descobre do que é feito o bolsonarismo.
Jamil Chade (Uol)
# O emaranhado criminoso das mensagens que enterram o bolsonarismo
(clipping do site)
A partir de uma articulação entre Agamben e Foucault, entre outros pensadores, o professor Dr. Castor Ruiz (Unisinos) se dedica nos últimos anos a pensar sobre as questões do estado de exceção e do governo das populações. Nesta entrevista, concedida ao professor Dr. Emiliano Aquino (UECE), com apoio da assessora de comunicação da Anpof, Dra. Nádia Junqueira (Unicamp), Ruiz reflete sobre a atual experiência colonial da Palestina a partir de sua pesquisa.
Nesta conversa, o professor Castor defende que o Estado de Israel utiliza o dispositivo da exceção como estratégia para tentar legitimar internacionalmente o que ele chama de Nakba, ou catástrofe, termo cunhado pelo povo palestino para expressar a grande expulsão de cerca de 750 mil palestinos de suas casas e terras em 1948, conceito que os mesmos estendem ao processo contínuo e ainda presente de expropriação de seu território. Ruiz articula os conceitos de guerra e de campo para refletir sobre essa experiência que ele chama de tanatopolítica, isto é, uma política de Estado cujo objetivo é eliminar fisicamente os opositores. O professor da Unisinos ainda promove o exercício de aproximar a experiência do estado de exceção na Alemanha nazista e o que acontece hoje em Gaza.
A entrevista é de Emiliano Aquino e Nádia Junqueira, publicada pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF), 08-08-2025.
As digitais da Microsoft no genocídio palestino
Revelada aliança secreta entre a corporação e o exército de Israel. Milhões de palestinos têm celulares espionados. Áudios armazenados ajudam a planejar ataques em Gaza e prisões na Cisjordânia. Rastrear todos, o tempo todo é a ordem
Hoje entendo perfeitamente os motivos dos 'jornalões' não mais se conectarem com os leitores
# Jogos antipatrióticos: o perigo real e imediato das ações de Eduardo e de Tarcísio nos EUA. Hugo Souza (Come Ananás)
# Por que o moleque de recados de Trump continua deputado no Brasil? Alvaro Costa e Silva (Folha)
# MAGA: Como o tiro de Trump sai pela culatra. Timoty Hopper (Outras Palavras)
Ensaios da 2a feira
# Inteligência Artificial (de) generativa. Ricardo Antunes (A Terra é redonda)
# Pierre Bourdieu: releituras. Afrânio Catani (A Terra é redonda).
# Palantir, o braço digital do fascismo tardio. Alberto Toscano (Outras Palavras)
# Os novos profetas da distopia. Evgeny Morozov (Outras Palavras)
# Motim bolsonarista é continuidade do golpe. Cláudio Couto (Uol)
# Para Bolsonaro, salvar a pele equivale desmontar instituições. Bernardo Carvalho (Folha)
# Nikolas, Jordy, Zanatta... a lista dos deputados golpistas (matéria da redação Uol)
Elídio Alexandre Borges (Come Ananás)
Hugo Souza (Come Ananás)
Tem sido incrivelmente difícil pensar objetivamente sobre o que está acontecendo no mundo. Parte da dificuldade se deve ao ineditismo das medidas e motivações que têm sido anunciadas sem trégua desde o dia 20 de janeiro de 2025. O caso brasileiro, por exemplo, causa imensa perplexidade. Qual interesse, realmente, tem o Presidente dos Estados Unidos em interferir nos assuntos domésticos do Brasil? Em tese, tal interesse deveria ser nenhum, já que parte (senão toda) da base de Donald Trump sequer sabe quem é Bolsonaro. Refiro-me ao americano médio, aquele que não reside em Washington, DC.
# Continue a leitura do artigo de Monica de Bolle (Substack)
“O governo Trump é a primeira presidência estadunidense da história completamente pós-liberal”, disse Mattia Diletti, professor da Universidade de Roma La Sapienza, na videoconferência “Sociedade e política no trumpismo. Ideologia, capitalismo nacional e nostalgia”, promovida pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU na semana passada. Para o pesquisador, o segundo governo Trump é decorrência de uma revolução iniciada em 2016, ao mesclar componentes da crise populista em curso em vários países e com elementos de disputa por ampliação dos direitos sociais e culturais estadunidenses desde a década de 1960. “Eu abraço a hipótese (…) de que ainda estamos dentro de um conflito que começa nos anos 1960, nos Estados Unidos, e que tem a ver com a questão racial e a ampliação dos direitos e das diferenças sociais, das subjetividades sociais e políticas que pedem representação, direitos e poder. Desde a década de 1960, estamos como num pêndulo de vai e vem entre ações de conflitos avançados por direitos e uma contrarreação por parte da maioria silenciosa”, explica.
# Entrevista com Matia Diletti (IHU)
Em A doutrina invisível, o jornalista, ambientalista e terror profissional dos ricos e governos tíbios, George Monbiot, alia-se ao cineasta Peter Hutchison para rastrear como uma filosofia marginal dos anos 1930 foi adotada pelas elites como escudo, armadura e catecismo. E como acabou disfarçada de lei natural: algo tão inevitável quanto a gravidade, mas muito mais rentável para poucos. Como uma ideia tão impopular conseguiu se impor como senso comum global?
# Entrevista com George Monbiot (IHU)
Não há ‘crise humanitária’ em Gaza, há genocídio industrializado. E cada país que mantém laços com Israel é cúmplice dessa máquina de morte.
# Paulo Sérgio Pinheiro (A Terra é redonda)
# Governo de Israel aprova ocupação de Gaza (Folha) # Países condenam ocupação de Gaza (Opera Mundi) # Alemanha suspende venda de Armas a Israel (Folha)
# Hiroshima, o flash mortal que mudou o mundo (IHU)
# Medo do comunismo foi tão eficaz para a rendição do Japão quanto as bombas. João Pereira Coutinho (Folha)
Congresso: o elo mais fraco na defesa da democracia 6-7/8
Se a Democracia brasileira não reagir vigorosa e imediatamente à volta dos terroristas à Praça dos Três Poderes, dois anos e meio após o 8/1, teremos derrotado um cabo e um soldado para entregar o ouro - ou seriam as terras raras - para um sargento e um delegado. Ninguém merece.
# Leia a versão integral da matéria de Hugo Souza (Come Ananás)
Em discurso ao fim de encontro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social nesta terça-feira (05/08), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a soberania brasileira enquanto voltou a criticar as taxas de 50% sobre produtos brasileiros impostas por seu homólogo dos Estados Unidos, Donald Trump
Se um juiz de 1a instância fosse ameaçado por um réu, imediatamente decretaria sua prisão. Agora tem-se um ex-presidente, formalmente acusado de comandar um golpe de Estado, que age através de um filho, que alega publicamente estar trabalhando por sanções contra o Brasil e contra Alexandre de Moraes. E a Folha não apenas passa pano, como endossa a armação.
# Continue a leitura: Luis Nassif (GGN)
# Mesquita faz autocrítica condescendente do jornalismo
Rodrigo Lara Mesquita, descendente dos fundadores do Estadão, bastião da imprensa conservadora paulista, escreve artigo na Folha cujo título resume a tese que defende: “Crise do jornalismo deixou terreno fértil para a erosão democrática”.
# Continue a leitura: Maurício Caleiro (Substack)
# O ruidoso colapso da ordem ocidental Walden Bello (Outras Palavras)
# A 'armadilha de Tucídides', Trump e o Brasil. Roberto L. Troster (Folha)
# Para os americanos, Trump venceu, mas pagarão o preço disso. Enrico Moretti (IHU)
O Conselho Nacional de Educação (CNE) caminha para um consenso entre seus membros para incluir no currículo de Pedagogia e das Licenciaturas a obrigatoriedade do ensino de Inteligência Artificial (IA). A ideia é formar professores que já cheguem às salas de aula preparados para oportunidades e desafios que essa tecnologia traz para o ambiente escolar.
# Hugo Souza: Este caramanchão de nióbio: minha prisão (Come Ananás)
A trágica saga dos bolsonaro. Helio Schwartzman (Folha)
Bolsonaristas festejam (...), mas Lula cresceu. João Filho (Intercept)
Bolsonarismo vive sua pior crise. Camila Rocha (Folha)
Atos (...) mostram dificuldade em furar a bolha. S. Guimarães (Uol)
Clipping do site: # O fim de Bolsonaro
Civita se valia da Veja para chantagens, jogadas comerciais, tentando emplacar seus sistemas de ensino e seus livros didáticos.
# Luis Nassif (GGN)
comportamento
Hiroshima, 1945
Ensaio da escritora argelina Louisa Yousfi, em pré-venda pelas editoras Autonomia Literária e GLAC, inspira-se na obra de escritores dissidentes e revolucionários para desafiar a hegemonização do imperialismo cultural.
# O Homem sem qualidades (Wikipedia) # Leia aqui resenha da GIZ
Lula é o favorito em todos os cenários: # Carta Capital # G1 # Folha
A biruta: por que Tarcísio enfrenta seu pior momento na corrida eleitoral.
Ana Clara Costa , piauí (acesse)
No terceiro dia do Gilmarpalooza, o jocoso apelido do evento promovido pelo ministro Gilmar Mendes em Lisboa, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deu duas palestras – uma sobre política externa, outra sobre segurança pública. As duas ocorreram no principal auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e contaram com audiência ilustre dos mundos jurídico e empresarial, incluindo o próprio Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Na abertura de uma delas, Tarcísio foi apresentado pelo mediador Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa, como um “inequívoco presidenciável”. A plateia, composta quase totalmente de brasileiros, aplaudiu. Tarcísio sorriu com ar calculadamente envergonhado.
Em sua fala, o governador abordou temas nacionais, como vinha fazendo com certa frequência, para desgosto de seu padrinho político, Jair Bolsonaro, que se incomoda ao vê-lo por aí calçando sapatos de presidenciável. Também falou sobre geopolítica e multilateralismo. A certa altura, afirmou que, diante das incertezas globais, sempre haverá necessidade de segurança alimentar – e o Brasil, grande produtor agrícola, certamente se beneficiará disso. “Se o mundo precisa de um parceiro confiável em segurança alimentar, nós estamos aqui”, disse.
Em 9 de julho, cinco dias depois do tour em Lisboa, Tarcísio jogou o “parceiro confiável” na fogueira. Quando Donald Trump anunciou o tarifaço de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, um meteoro atingiu em cheio a agricultura e toda a cadeia industrial paulista – e levou o governador de arrasto. Como Trump anunciou que seu objetivo era punir o Brasil em razão da “caça às bruxas” que o país estaria promovendo contra Bolsonaro por sua maquinação golpista, Tarcísio achou que havia uma escolha a fazer: defender publicamente o ex-chefe ou a economia do país – em especial a de São Paulo, principal exportadora para o mercado americano. Tarcísio, que já se deixou fotografar vestindo o boné do Maga, o movimento da direita trumpista, não titubeou e, em vez de criticar o presidente dos Estados Unidos, criticou o do Brasil:
– Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado – postou nas suas redes sociais. – A responsabilidade é de quem governa. Narrativas não resolverão o problema.
Estava seguindo uma ordem de cima. Assim que a carta de Trump foi divulgada, Bolsonaro se consultou com aliados e decidiu que a posição do seu grupo político seria responsabilizar a política externa de Lula e a reunião de cúpula do Brics pela imposição da tarifa. Com 473 palavras, a carta de Trump não mencionava nenhum desses argumentos, mas Tarcísio obedeceu à ordem sem pestanejar. Em seu post, não disse nada em favor da economia nacional e ainda acusou o governo brasileiro de ter agredido “o maior investidor direto do Brasil”, o que colocou Trump como autor de um ataque justificado contra o país, quase um ato de legítima defesa. E, achando que narrativas resolverão o problema, escreveu que “não adianta se esconder atrás de Bolsonaro”, rebatendo o próprio Trump que atribuiu o tarifaço à defesa do ex-presidente.
A agricultura e a indústria de São Paulo – de onde saem mais de 13 bilhões de dólares em exportações anuais para os Estados Unidos, onde estão localizadas potências como a Embraer, a Suzano e a Cosan, onde se produz o suco de laranja que abastece 50% do mercado americano – ficaram órfãs de defensores em casa. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, um político do MDB que vive bajulando Tarcísio para obter seu apoio a uma eventual candidatura ao governo estadual em 2026, cerrou fileiras ao ataque contra o Brasil. Sobre o post de Tarcísio, comentou: “Pontual. Preciso.” Guilherme Piai Filizzola, o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, também alinhou-se à posição do governador e atribuiu a tarifa à “ditadura” brasileira. “Viver em ditadura custa caro. E a fatura chegou.”
Ainda antes da publicação do post de Tarcísio, um editorial de O Estado de S. Paulo, jornal insuspeito de apoio ao presidente petista, demonstrou o incômodo do PIB paulista com a subserviência do governador ao trumpismo. Escreveu: “Vestir o boné de Trump, hoje, significa alinhar-se a um troglodita que pode causar imensos danos à economia brasileira. Caso Trump leve adiante sua ameaça, Tarcísio e outros políticos embevecidos com o presidente americano terão dificuldade para se explicar com os setores produtivos afetados. Eis aí o mal que faz ao Brasil um irresponsável como Bolsonaro, com a ajuda de todos que lhe dão sustentação política com vista a herdar seu patrimônio eleitoral.”
Depois da divulgação do post do governador, o coro das críticas subiu de tom. Em novo editorial, comentando a reação ao ataque de Trump, o Estadão classificou de “ultrajante” a complacência de Tarcísio, do mineiro Romeu Zema e do goiano Ronaldo Caiado, todos governadores da direita ávidos pelo espólio eleitoral do ex-presidente. “As reações públicas dos três serviram para expor a miséria moral e intelectual de uma parcela da direita que se diz moderna, mas que continua a gravitar em torno de um ideário retrógrado, personalista, francamente antinacional e falido como é o bolsonarismo.” Até o colunista do jornal O Globo, Merval Pereira, cujo currículo não contém deslizes esquerdistas, escreveu que a atitude submissa de Tarcísio demonstrava sua “falta de autonomia para se colocar a favor dos interesses nacionais” e acusou o governador de se comportar “como um direitista radical, não um político de direita com propensão ao diálogo”.
Um advogado que conhece Tarcísio há vinte anos assistiu a sua palestra no Gilmarpalooza em Lisboa e, depois, testemunhou o efeito do tarifaço em São Paulo. Ele conta a mudança dos ventos. “Em Portugal, quando o Tarcísio terminou de falar, ficou muito tempo ainda ali recebendo os cumprimentos das pessoas. Todos encantados. Era como se houvesse um fluxo inexorável de apoio a ele. Um movimento meio avassalador, desses que acontecem na política e ninguém consegue parar”, diz. A cena remete a outro ex-governador paulista, o tucano José Serra, que um ano antes da eleição de 2002, já era tratado como virtual presidente do país. Perdeu para Lula.
Em Lisboa, entre os encantados por Tarcísio, havia velhos amigos de Lula, como o empresário Marcos Molina, da Marfrig, gigante da exportação de carne que, assim como a concorrente JBS, seria alvo do tarifaço mais adiante. Depois, em São Paulo, a romaria era outra. “Há uma frustração meio geral”, diz o advogado. “A verdade é que Tarcísio não consegue ser tudo o que as pessoas querem que ele seja. Gestor e estadista ao mesmo tempo. Democrata, bolsonarista e tucano. Ele tem uma visão tática, não tem visão estratégica. Ele pensa na conjuntura do dia, o que faz com que as suas mudanças de vento sejam bruscas. Aí ele perde a consistência e as pessoas se perguntam: ‘No que ele acredita, afinal?’”
As reclamações do empresariado começaram no mesmo dia 9, quando Trump anunciou a tarifa. Tarcísio farejou o erro de sua reação inicial e, no dia seguinte, tentou recuperar terreno. Embarcou para Brasília, reuniu-se com Bolsonaro e colocou um novo plano em prática. Pediu uma reunião com o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, na tentativa de mostrar que estava empenhado na busca de uma solução negociada. Sem traquejo na diplomacia, meteu os pés pelas mãos. Funcionário de quarto escalão, Escobar foi nomeado pelo ex-presidente Joe Biden e não tem qualquer interlocução com a Casa Branca. Só continua em Brasília em razão da indiferença com que Trump vinha tratando o país. Escobar não tem mandato, nem cargo, nem caneta para interceder a favor do Brasil.
No mesmo dia, Tarcísio teve outra ideia extravagante. Segundo revelou a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o governador procurou o STF para pedir a liberação do passaporte de Bolsonaro. Assim, o ex-presidente poderia viajar aos Estados Unidos, acompanhando os presidentes da Câmara e do Senado, para tentar revogar o tarifaço – afinal, Trump dissera numa rede social que Bolsonaro era um “grande negociador comercial”. Era uma solução estapafúrdia, já que Bolsonaro não tem mandato, nem cargo, nem caneta para negociar em nome do Brasil. Segundo a Folha, alguns ministros do STF classificaram a saída como “surpreendente” e “esdrúxula”.
Em uma só tacada, Tarcísio cometeu um strike nas instituições: pleiteou um salvo-conduto internacional para o ex-
chefe junto à Corte que está em vias de julgá-lo; desqualificou a diplomacia brasileira, que é um órgão de Estado reconhecido pela sua competência para tratar temas comerciais; e aboliu o papel do presidente da República, que recebeu votos em 2022 justamente para descascar esse tipo de abacaxi. Como que para ampliar seu desrespeito ao STF, Tarcísio disse a jornalistas que “qualquer candidato da centro-direita daria um indulto a Bolsonaro”, caso a Corte venha a condená-lo, e, dias antes do tarifaço, escreveu numa rede social que Bolsonaro devia “ser julgado somente pelo povo brasileiro”. Tudo isso levou um ministro do STF a dizer o seguinte à piauí: “Tarcísio demonstrou ignorância quanto a parâmetros institucionais básicos.”
O empresário de um dos setores mais atingidos pelas tarifas, que pediu anonimato para não aumentar a cizânia, reconhece a falta de profissionalismo na atitude do governador, tanto que procurou o governo estadual para pedir um ajuste no discurso. Ele pondera que até a Frente Parlamentar da Agropecuária, o poderoso lobby da bancada ruralista no Congresso, mediu as palavras na hora de se manifestar sobre o tarifaço, tentando baixar a temperatura e estimular o diálogo, coisa que Tarcísio não fez. “Não é a primeira vez que o Tarcísio não fica atento a certas características do estado de São Paulo. Às vezes acho que pesa o fato de ser carioca. E não é bairrismo. Mas, quando você é paulista, você cresce com a cultura de que é o estado da cana, da carne, do suco de laranja. E isso, no interior, tem muita importância para as pessoas. Ele não tem a sensibilidade de pensar que o Brasil é o maior exportador do mundo de muitas dessas coisas, e ainda tem a aeronáutica, o aço… Faltou bom senso, faltou uma abordagem técnica. Ele sempre foi um cara técnico e acho que está se perdendo um pouco na política.”
Comportando-se como uma biruta, Tarcísio não conseguiu ganhar nem a gratidão da família do ex-presidente. Ao contrário. O deputado Eduardo Bolsonaro, que disputa com o governador o “dedaço” presidencial de Bolsonaro, não gostou. “O Tarcísio tem que entender que o filho do presidente está nos Estados Unidos e tem acesso à Casa Branca. Qualquer tentativa de nos dar bypass será brecada e freada”, disse, em entrevista à Folha de S.Paulo. Jair Bolsonaro também malhou o governador numa entrevista à CNN: “Não adianta um governador de estado, por mais respeito que eu tenha por ele, tentar resolver esse assunto dentro do seu estado, porque não resolve.”
Tarcísio decidiu então baixar o tom. Em mais uma mudança de rota, deixou de ser o governador que politizou o assunto desde o primeiro minuto, ao acusar Lula de priorizar a “ideologia”, dizer que “a reponsabilidade é de quem governa” e defender “o maior investidor direto do Brasil”. Em viagem ao interior de São Paulo no calor dos acontecimentos, parou de mencionar Bolsonaro e pregou “união de esforços e sinergia” porque “os poderes precisam estar de mãos dadas agora para resolver”. Elogiou a diplomacia que antes desprezara e redefiniu seu papel: “Eu sou governador do estado, existem interesses que precisam ser preservados, interesses das nossas empresas, dos nossos produtores, e é isso que a gente tem que botar em primeiro lugar. Eu estou falando de empregos, estou falando de pais de família.”
Na terça-feira, 15, seis dias depois do anúncio do tarifaço, assim que teve acesso a números então inéditos da pesquisa da Quaest, Bolsonaro também recalculou sua rota. Os números indicavam que, pela primeira vez desde a intentona golpista do Oito de Janeiro, a direita estava batendo cabeça. Nem os bolsonaristas vinham tocando pela mesma partitura. Para 48% deles, Trump estava errado, mas 42% achavam que estava certo. Pior ainda: 44% culpavam Lula, como era previsível, mas 36% atribuíam o tarifaço a outras razões, todas elas ligadas a Bolsonaro, ao seu filho Eduardo ou às gigantes da tecnologia, as chamadas big techs. À noite, Bolsonaro então deu uma entrevista ao site Poder360. Elogiou Tarcísio, disse que a direita não podia se dividir e colocou “uma pedra em cima desse assunto”. Tarcísio parecia voltar às águas mansas.
Na manhã do dia 18 de julho, uma sexta-feira, agentes da Polícia Federal bateram na porta da casa de Bolsonaro em Brasília, apreenderam 14 mil dólares em dinheiro vivo, acharam um pen drive escondido no banheiro e levaram o ex-presidente para colocar tornozeleira eletrônica. As suspeitas de que podia fugir do país e vinha tentando subverter seu processo judicial levaram a Procuradoria-Geral da República a pedir as medidas cautelares. Desde então, Bolsonaro está proibido de se ausentar de Brasília, sair de casa à noite, entrar em contato com outros investigados, usar as redes sociais e aproximar-se de embaixadas – inclusive a da Hungria, onde se homiziou por dois dias em fevereiro do ano passado.
Tarcísio então retornou à artilharia bolsonarista. Em uma nota, protestou contra as medidas cautelares, defendeu o ex-chefe, elogiou sua notável “coragem” e decretou: “Não haverá paz social sem paz política, sem visão de longo prazo, sem eleições livres, justas e competitivas.” A frase final produziu nova perplexidade: afinal, no que o governador acredita? Em março, durante um evento no Tribunal de Justiça de São Paulo, Tarcísio fizera elogios à Justiça Eleitoral, reconhecendo sua competência, rapidez e confiabilidade. “A gente tem que fazer o agradecimento à Justiça Eleitoral por todo esse trabalho, por todo esse empenho como garantidora da democracia brasileira”, disse. Agora, quatro meses depois, Tarcísio afirma que, se o nome de Bolsonaro não estiver na tela da urna eletrônica, as eleições não serão nem livres, nem justas, nem competitivas?
À noite do mesmo dia, Trump despachou outra sanção. Seu secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou que estava cancelando o visto do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e “seus aliados na Corte”. Mais tarde, soube-se que a sanção incluía o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e sete outros ministros do tribunal. Poupava apenas Kassio Nunes Marques e André Mendonça, nomeados por Bolsonaro, e Luiz Fux, indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff. Tarcísio não se manifestou. Então, sua sexta-feira terminou assim: de manhã, com o anúncio de que Bolsonaro teria que usar uma tornozeleira, criticou duramente a decisão judicial; de noite, diante da tentativa de uma nação estrangeira de intimidar membros de uma instituição nacional, silenciou.
No labirinto dos acontecimentos, o caminho que Tarcísio vinha fazendo para obter o apoio de Bolsonaro à sua candidatura presidencial se alterou dramaticamente. As tensões – tarifas escorchantes, vistos cancelados, ameaças de novas sanções, tornozeleira eletrônica – tumultuaram o cenário que antes parecia claro: o candidato do ex-presidente em 2026 seria um membro de sua família ou Tarcísio. Eduardo, o filho mais interessado em concorrer, enrolou-se de maneira talvez irreversível ao ameaçar o Supremo e atentar contra a soberania nacional. Fez bonito para a base radical do bolsonarismo, tanto que ganhou terreno nas pesquisas, mas assustou outros segmentos com seu destempero.
Apesar da atitude errática, é prematuro dizer que o governador tenha perdido o apoio do PIB ou do Centrão à sua candidatura presidencial. Em conversas privadas, empresários de setores afetados e dirigentes da Fiesp, a entidade que reúne os industriais paulistas, têm dito que, diante da hecatombe, Tarcísio foi o menor dos problemas – e, para muitos deles, os negócios são mais importantes do que a soberania nacional. No entanto, um termômetro da frustração do mercado está no comportamento de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central. Ele é amigo de Tarcísio, tanto que seu nome é tratado como o futuro ministro da Fazenda caso o governador vire presidente, mas sua confiança está abalada. Na campanha presidencial, Campos Neto ajudou Bolsonaro rodando modelos econométricos para medir suas chances eleitorais. Está fazendo o mesmo agora com Tarcísio. Em junho, seus modelos indicavam que o governador tinha 80% de probabilidade de vencer Lula no ano que vem. Agora, ressabiado, tem dito a amigos que seria prudente buscar um outsider para 2026. Parece que Tarcísio terá de remar um pouco mais para continuar sendo o plano A.
Desde que foi nomeado ministro da Infraestrutura do governo de Jair Bolsonaro, Tarcísio sempre procurou mostrar ao empresariado, a portas fechadas, que desaprovava as atitudes radicais do chefe. Era visto como integrante do núcleo político que discordava das críticas à vacina e da agenda ideológica, e se atritava com o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do presidente que insuflava a ala radical.
Nada disso impediu Tarcísio de acompanhar Bolsonaro em atos de aglomeração durante a pandemia e manter-se indiferente às discussões sobre “alternativas constitucionais” para segurar Bolsonaro no poder. Já eleito governador, condenou a quebradeira do Oito de Janeiro, mas apareceu na primeira fila das manifestações pela anistia aos golpistas. “A pauta da anistia ele sempre defendeu. Ele esteve em todas as manifestações. Foi o único governador que foi em todas”, elogia o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara.
Quando assumiu o governo paulista, Tarcísio anistiou por decreto as multas de quem promoveu aglomeração durante o isolamento. Com isso, Bolsonaro recuperou quase 1 milhão de reais em multas que já haviam sido depositados em juízo. Outras 11 mil multas foram anistiadas. O governador também havia sido autuado por infringir a lei (três vezes), mas, quando a anistia chegou, já havia saldado sua dívida. Como um dos primeiros atos de sua gestão, ele fez outro aceno ao bolsonarismo: retirou a obrigatoriedade de comprovantes de vacinação para entrada em locais públicos e privados. Ao montar sua equipe, atendeu a um pedido de Bolsonaro e seus filhos e entregou a Secretaria de Segurança Pública a Guilherme Derrite, um ex-policial acusado de integrar um grupo de extermínio.
Enquanto fazia concessões ao bolsonarismo, o governador tentava costurar alianças do lado oposto, na ilusão de transitar sem obstáculos entre Berlim e Stalingrado. Acatou a indicação bolsonarista de Derrite, mas também aceitou a sugestão do ministro Alexandre de Moraes, que foi secretário de Segurança Pública em São Paulo, segundo a qual deveria nomear um adjunto experiente no órgão para compensar os defeitos e as carências de Derrite. Tarcísio nomeou o delegado Osvaldo Nico, da Polícia Civil. O governador também ouviu Moraes na nomeação do procurador-geral de Justiça. Escolheu Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, que ficara em terceiro lugar na votação da lista tríplice do Ministério Público de São Paulo, preterindo o primeiro colocado, José Carlos Cosenzo, que era desafeto do ministro. Moraes fora advertido que Cosenzo dizia por aí que ele cometera plágio. (Em 2017, o ministro foi acusado de copiar trechos do livro de um ex-juiz espanhol ao escrever sua obra Direitos humanos fundamentais. Ele negou o plágio. A Universidade de São Paulo, sua alma mater, referendou sua defesa afirmando que não encontrara evidência de cópia.)
As deferências a Moraes não passaram despercebidas ao núcleo do ex-presidente, e suas demonstrações de fidelidade começaram a ser vistas como demonstrações de falsidade. Um aliado de primeira hora de Bolsonaro diz que não há problema em Tarcísio dialogar com Moraes. O problema está no fato de que ele não exerce qualquer influência sobre o ministro. “Ele não é o segundo nome mais poderoso da República, o governador do maior estado? Tinha que estar continuamente no pé dos caras, mas ele está engolido pela Corte”, diz. Para ele, por exemplo, Tarcísio precisava ter obtido garantias de que o passaporte de Eduardo Bolsonaro não seria apreendido. “Mas não teve isso.”
Ainda no governo Bolsonaro, o então ministro Tarcísio aproximou-se de Alexandre de Moraes, num movimento que contou com a ajuda do ex-presidente Michel Temer. Na época, tanto Temer quanto Tarcísio faziam parte da turma dos bombeiros que tentavam apagar os incêndios que Bolsonaro armava contra o STF. Recentemente, Tarcísio também se tornou próximo de Rodrigo Garcia, ex-governador paulista e um dos amigos mais íntimos de Alexandre de Moraes. Neste ano, porém, as relações entre Tarcísio e Moraes estremeceram depois que o governador passou a subir em carros de som na Avenida Paulista em defesa dos golpistas do Oito de Janeiro. Mesmo milimetrando seus movimentos – a ponto de só usar a camiseta azul da Seleção, em vez da amarela –, Tarcísio não escapou das críticas do STF, que não engoliu a defesa da anistia – sobre a qual, aliás, o governador agiu em termos práticos.
Tarcísio esteve entre os que se empenharam em recolher assinaturas para aprovar a urgência da votação do projeto na Câmara. Em maio, durante conversa com a piauí, o deputado Sóstenes Cavalcante contou que precisava do apoio de deputados do Republicanos, mas não conseguira ajuda do presidente do partido, Marcos Pereira. Recorreu a Tarcísio. “Eu tinha a ajuda do Ciro [Nogueira], que é do Progressistas, tinha a ajuda do [Gilberto] Kassab, do PSD, e tinha ajuda do [Antonio] Rueda, do União Brasil. Eu não tinha a ajuda do Marcos Pereira. Nem dele, nem do líder dele. Aí liguei para o Tarcísio e falei: ‘Governador, o senhor é do Republicanos. Eu preciso da sua ajuda para fechar essas 247 assinaturas’.” Tarcísio entregou quatro assinaturas de São Paulo. O projeto nunca foi pautado, mas o líder do PL reconhece o esforço. “Ele fez o papel de governador, de aliado de primeira ordem de Bolsonaro, dentro do limite do cargo que hoje ele ocupa. E fez bem, na minha avaliação”, diz Cavalcante.
Entre o cravo e a ferradura, Tarcísio vem angariando antipatias discretas. “Ele acha que engana quem?”, desabafou um ministro do STF numa conversa com um amigo. “Ele diz que respeita as instituições, mas fica no carro de som enquanto o [pastor] Silas Malafaia fala contra o Alexandre? Não critica o STF, mas fica no carro?” Um amigo de Moraes, ouvido pela piauí sob a condição de não ter seu nome exposto, avalia que, até o tarifaço, Tarcísio vinha exibindo mais proximidade com o ministro do STF do que de fato tem. Era sua forma de vender a imagem de “direita moderada”.
O mesmo interlocutor observa que, em seus salamaleques em direção ao STF, Tarcísio estava pavimentando o caminho de um acordo para indultar a Bolsonaro sem causar uma crise institucional, caso fosse eleito. Em troca do indulto, Tarcísio trabalharia contra a pauta de impeachment de ministros do STF no Senado, um risco que pode crescer com a eleição do ano que vem, na qual Bolsonaro, mesmo preso, almeja eleger uma bancada robusta – o PL diz ser favorito para 32 das 54 vagas, embora ainda não haja pesquisas que corroborem essa previsão. Não à toa, Carlos Bolsonaro disputará a vaga por Santa Catarina e Michelle Bolsonaro é considerada vitória certa no Distrito Federal. Eduardo Bolsonaro, diante do provável ocaso de sua empreitada presidencial, agora é cotado para concorrer por São Paulo – se ainda estiver solto. Não se sabe se o toma lá dá cá chegou ao ministro Alexandre de Moraes, mas políticos do Centrão interessados em viabilizar Tarcísio têm feito questão de ventilar a proposta nos bastidores. “Nunca existiu a menor possibilidade de acordo. O STF cassaria o indulto”, aposta o amigo de Moraes. Em um despacho anexado ao processo do golpe, depois da cassação dos vistos americanos, Moraes afirmou que a anistia é “inconstitucional”, sinalizando que o indulto também não seria aceito pelo tribunal.
A notável maleabilidade das convicções de Tarcísio é, a um só tempo, alvo de críticas e elogios. Um de seus secretários, que falou com a piauí sob a condição de ficar anônimo, diz que é um comportamento positivo, tanto que levou o governador a voltar atrás na decisão de acabar com as câmeras corporais dos policiais militares. “Ele disse: ‘Eu errei.’ Tarcísio achava que a presença da câmera significava desconfiança do soldado e depois entendeu que era para a própria segurança do soldado.” Um ex-
colega de Esplanada, no entanto, classifica a flexibilidade do governador como coisa de “bolsonarista fajuto”, que tenta se cacifar como aliado fiel de Bolsonaro, enquanto delega a Gilberto Kassab a função de fazer política no estado. Para interlocutores mais ligados à esquerda, Tarcísio já disse, em outro lance camaleônico, que só usou o boné do Maga porque precisa jogar iscas para agradar o bolsonarismo a cada dois meses.
Donde volta a pergunta: No que o governador acredita, afinal?
Um influente operador de Brasília, que conhece Tarcísio bastante bem, atribui a facilidade com que o governador altera seu rumo – ora radical, ora moderado, ora tecnocrata – ao contexto político atual. “Ele tem o estilo de ficar agradando todo mundo. E político, para ter voz, tem que ter lado. A pior coisa para um político é não ter discurso. Até agora, ele não precisou ter discurso porque a eleição caiu no colo dele. Ele não precisou ter bandeira”, pondera. Já o economista José Márcio Camargo, sócio do Banco Genial, em uma conversa com a piauí em junho, avalia que Tarcísio é habilidoso e não se deixará tutelar. “Ele trabalhou para a Dilma, para o Temer, para o Bolsonaro. Sempre foi muito independente no sentido de fazer as coisas que precisavam ser feitas. Ele tem uma história. Ele não é servidor do Bolsonaro. Ele tem lealdade, com toda a razão, pois foi o Bolsonaro que o indicou para o cargo de governador. Não dá para jogar isso no lixo.” Quando voltei a procurá-lo depois do tarifaço, Camargo disse que sua avaliação continuava a mesma.
Na sua ciranda, Tarcísio tem feito testes com múltiplas máscaras. Em eventos no exterior, sobretudo aqueles patrocinados por bancos brasileiros em Nova York, ele capricha no discurso sobre a pauta nacional, toma vinho e discute sobre o “pipeline de projetos” com o mercado financeiro. Em viagens ao interior de São Paulo, já arrastou o erre caipira, escondendo seu carioquismo, e enalteceu a música sertaneja, ou o “modão”, como ele costuma dizer em vídeos nas redes sociais. Quem o conhece desde os governos petistas lembra que ele jamais mencionara dois dados de sua biografia que hoje nunca esquece: seu passado militar e sua devoção religiosa. Esses traços só vieram a público quando Tarcísio tornou-se ministro de Bolsonaro.
Até então, era católico não praticante, mas agora revela certa destreza no mundo evangélico. Na última Marcha para Jesus em São Paulo, embrulhou-se numa bandeira de Israel e cantou louvores de olhos cerrados, como se estivesse em transe. Em abril passado, no aniversário de 50 anos do empresário Ricardo Faria, conhecido como Rei do Ovo, comemorado no Hotel Fasano Boa Vista, a advogada Guiomar Mendes, mulher do ministro Gilmar Mendes, puxou um cântico muito usado no rito católico para homenagear o aniversariante. Os convidados vips da festa, entre senadores, governadores, ministros do STF e banqueiros, foram puxados ao palco para cantar junto – e lá estava Tarcísio, entoando a plenos pulmões o refrão religioso.
Na festa, ao passar por rodas de empresários, ele ouvia cumprimentos efusivos e apelos para que os “salvasse”. Salvar, neste caso, significava candidatar-se à Presidência da República e ganhar de Lula em 2026. Uma colunista social do site Infoverus, especializado em notícias do agro, registrou a cobertura da noite em suas redes sociais. Tarcísio, a estrela do pedaço, aparecia em mais fotos do que o próprio aniversariante.
Tarcísio Gomes de Freitas tem 50 anos e é filho de um carregador de caixas que depois fez carreira no Banco do Brasil e de uma empregada doméstica. Em boa parte de sua trajetória, viveu em condições modestas. Antes de tornar-se ministro, morava num apartamento de dois quartos em Águas Claras, cidade-satélite de Brasília, com a mulher, Cristiane, e um casal de filhos. De início, ascendeu no governo graças a suas ligações com o PT. Em 2011, ainda era apenas um auditor recém-ingressado na Controladoria-Geral da União, quando procurou o engenheiro Bernardo Figueiredo, diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Apresentou um diagnóstico que traçara sobre o setor, com especial atenção ao Dnit, órgão federal que cuida das estradas. Figueiredo gostou muito do que viu. Quando quis conter a roubalheira no Ministério dos Transportes, comandado pelo pl, a então presidente Dilma Rousseff pediu a Figueiredo sugestões técnicas para as diretorias. Figueiredo indicou Tarcísio, que acabou diretor executivo do Dnit. Quando batia de frente com malfeitos da turma de Valdemar Costa Neto, Tarcísio, quem diria, procurava o pt em busca de apoio político. Era atendido.
Enfraquecida politicamente em 2014, Dilma começou a perder a queda de braço no Dnit e, quem diria, Costa Neto conseguiu derrubar Tarcísio. Demitido, ele fez concurso para consultor da Câmara dos Deputados, passou em primeiro lugar e assumiu o cargo em 2015. Durante o impeachment de Dilma, Tarcísio criticou os governos petistas em audiências na Câmara. A oposição cresceu o olho. Convidou-o para integrar o governo de Michel Temer, ocupando cargo na Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), chefiada por Moreira Franco. Em entrevista à piauí em 2022, Moreira Franco contou que Tarcísio foi uma contratação técnica, que “nem sabia” de sua proximidade com o PT e tampouco fora informado de que tinha formação militar. “Naquele período ele tinha uma conversa muito mais tucana do que bolsonarista”, diz Moreira Franco. Ele se lembra que Tarcísio trabalhava muito e não demonstrava inclinação política, nem simpatia pela extrema direita.
Com a vitória de Bolsonaro, formou-se a equipe de transição entre os governos. Moreira Franco nomeou outro membro de sua equipe para compor o grupo. Mas Tarcísio arrancou uma indicação por meio de empresários da soja que conhecera na época do Dnit. Foi então nomeado auxiliar de Tereza Cristina, que viria a ser ministra da Agricultura. Chegou a ser sondado para chefiar uma das secretarias de Romeu Zema, governador de Minas Gerais, mas recusou: queria um cargo de mais destaque em Brasília. Com ajuda dos empresários do agro e da própria Tereza Cristina, ganhou a vaga de ministro da Infraestrutura. Estava consolidado o seu voo: de Dilma para Bolsonaro, com escala em Temer.
Em meados de 2020, quando Bolsonaro decidiu que Tarcísio seria candidato ao governo de São Paulo, ele não botou fé, mas não se opôs. Colocou placas de porcelana nos dentes, passou a vestir-se melhor e intensificou sua agenda com o empresariado paulista. Filiou-se ao Republicanos, ainda magoado com o tratamento que recebera do PL no Dnit. Como o eleitorado paulista rejeitava Bolsonaro no auge da pandemia, Tarcísio foi aconselhado a moderar o discurso e migrar para o centro. Nesse período, chegou a dizer em entrevista ao site Agência INFRA que Dilma “era uma pessoa honesta” e que “pode ter errado em deixar que a corrupção acontecesse no governo dela”, mas que ela “não tinha nada” de corrupta. Bolsonaro, porém, logo passou a recuperar prestígio entre os eleitores paulistas, e Tarcísio já não tinha interesse em distanciar-se dele. Os filhos do ex-presidente jamais perdoaram a inflexão oportunista.
Quando Bolsonaro tornou-se inelegível até 2030, as atenções da direita se voltaram para o possível sucessor – e Tarcísio surgiu como nome favorito do “bolsonarismo sem Bolsonaro”. Era um desafio contrário ao da mulher de César, que, além de ser honesta, precisava parecer honesta. No caso de Tarcísio, a direita considera até bom que seja um bolsonarista, mas que não se pareça um. Para o Centrão, considerando que a Faria Lima e o empresariado nacional nunca engoliram o PT, era a solução ideal. O único obstáculo é que nenhum deles – nem Centrão, nem Faria Lima, nem empresários – mobiliza votos e eleitores. Tarcísio precisaria então dos votos e dos eleitores de Bolsonaro.
Desde que deixou a Presidência da República, Jair Bolsonaro comanda uma disputa velada pelo seu espólio que, segundo os cálculos da Quaest, chega a 11% do eleitorado – ou 34%, se incluídos aí os bolsonaristas menos sólidos. Depois que se tornou inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, em junho de 2023, a disputa ganhou maior tração, mas Bolsonaro faz questão de adiar a sua escolha o quanto pode. Tarcísio até pode acabar sendo o escolhido, mas o ex-presidente já disse a aliados mais próximos que sua escolha só recairá sobre o governador se não tiver nenhuma outra opção dentro da sua família.
No vácuo da indecisão, a família se insinuou: Eduardo, o Zero Três, reunia as melhores chances devido à ausência de rolos com a Justiça – até tropeçar nas tarifas contra o Brasil. Michelle, a ex-primeira-dama, corre por fora. “A Michelle reúne mulheres, evangélicos, bolsonaristas e a direita”, diz o pastor Silas Malafaia, ao listar as razões pelas quais considera a ex-primeira-dama um nome imbatível. Mas Michelle, embora carregue o sobrenome Bolsonaro, tem duas fragilidades: ela não desfruta da confiança dos filhos do ex-presidente, e o casamento com alguma frequência bate pelas tabelas. Quando Bolsonaro partiu para a Flórida, às vésperas da tentativa de golpe, aliados tiveram que insistir para que a ex-primeira-dama o acompanhasse. Caso contrário, Bolsonaro, além de derrotado nas urnas, também ficaria com a pecha de marido abandonado.
Com o cenário assim configurado, os maiores adversários de Tarcísio estão dentro da própria família Bolsonaro, num processo autofágico que o cientista político Antonio Lavareda chamou de “primárias da direita”. O tarifaço de Trump acabou expondo uma cisão em cujas profundezas encontra-se um fato singular: os filhos e a mulher acreditam que, além deles próprios, ninguém é tão bolsonarista a ponto de merecer a distinção de levar o balaio dos votos de Bolsonaro. Nem Tarcísio, é claro.
No primeiro semestre deste ano, o mercado financeiro lançou especulações de que o ex-presidente havia tomado a decisão de apoiar Tarcísio. A máquina bolsonarista, sob o comando dos filhos, entrou em ação. Começaram a circular nas redes sociais vídeos feitos por inteligência artificial em que pessoas vestidas de verde-amarelo criticavam o governador. Em um deles, um patriota atacava: “Esse vendido amigo do Xandão só é governador para o Centrão, para a Faria Lima e para o STF.” Em grupos de WhatsApp, apareceu um dossiê, sob o título São Paulo na engrenagem verde, que denunciava Tarcísio pelo pecado de implementar uma “agenda climática” no estado. Na última manifestação na Avenida Paulista, enquanto Tarcísio discursava a favor da anistia, o canal no YouTube da AuriVerde Brasil, hoje o maior reduto de bolsonaristas raiz, exibia mensagens depreciativas ao governador.
O jogo de pressões e intrigas – a Faria Lima empurrando numa direção, os filhos empurrando em outra – contaminou Bolsonaro. Ele chegou a se indispor com Tarcísio, alegando que seu pupilo nunca desmentia com veemência rumores de que era candidato. Bolsonaro disse publicamente que o governador não era “excepcional” e que era “um bom político, como tem outros nomes pelo Brasil”. Um interlocutor do Centrão, hoje mais próximo do governador do que do ex-presidente, conta: “O Bolsonaro chegou a chamar o Tarcísio de lado e dizer que ele mesmo ia ser candidato e que o Tarcísio sairia por São Paulo.” Em razão desse aviso, Tarcísio disse mais tarde, durante um evento de bancos brasileiros em Nova York, que não havia “direita sem Bolsonaro”.
As leituras, embaladas nos interesses de cada um, se multiplicam. Ainda em Nova York, um empresário se reuniu com Tarcísio e saiu com a impressão de que, entre todos os presidenciáveis, ele era o que menos aparentava a intenção de concorrer. O círculo mais próximo de Tarcísio explica que, naquela altura, ele andava irritado com as demonstrações de desprezo por parte de Bolsonaro. Mas continuava engolindo sapo, bajulando o ex-presidente e batalhando para fazê-lo ver que não tinha intenção de sabotá-
lo mais adiante. Um entusiasta de sua candidatura, também em Nova York, viu tudo e aconselhou Tarcísio a ter cuidado em sua relação com Bolsonaro, que era manipulador e conduziria a situação de tal modo que Tarcísio ainda sairia como traidor, e não como vítima.
Na conversa que tivemos em maio, Sóstenes Cavalcante, o líder do PL, cravou a razão de Bolsonaro cozinhar sua sucessão em banho-maria. “No dia em que ele anunciar que o candidato é o Tarcísio, ele perde todo o capital político, né? E transfere isso para uma outra pessoa num momento em que ele está fragilizado, com um processo nas costas. Então ele não pode”, afirma. Quando seria o momento ideal? Há quem sugira que Bolsonaro defina seu candidato antes de ser condenado e preso. Assim, teria mais força para emplacar um filho ou Michelle como vice de chapa, além de negociar um indulto e indicações para ministérios. Mas outros avaliam que esticar a corda até o último minuto pode aumentar o valor de seu passe, sobretudo se ele mantiver acesa a dúvida sobre lançar ou não o filho ou a mulher ao cargo.
Mas tudo isso fazia mais sentido até o dia 9 de julho, quando Trump tarifou o Brasil em nome de Bolsonaro – e Bolsonaro passou a acreditar que o presidente americano vai acabar com a “caça às bruxas”, possivelmente evitando sua prisão e restituindo seus direitos políticos. O cenário, então, entrou em convulsão. Um punhado de aliados afirmam que o ex-presidente está ainda mais radicalizado e disposto a partir para o tudo ou nada. Os sintomas apareceram em uma entrevista à CNN, na qual reincorporou a figura do desequilibrado. Aos berros, disse: “Porra, que golpe? Que golpe é esse? Sem tropa? Sem Forças Armadas? Sem nada?” Depois, disse que “eleição sem oposição é golpe”, deixando claro que só ele, ninguém mais, pode representar o campo da oposição.
Tarcísio, por sua vez, além de tropeçar nas próprias pernas, está mais fragilizado porque o tarifaço atiçou apetites alheios. Os governadores Romeu Zema, de Minas, e Ronaldo Caiado, de Goiás, que andavam meio apagados diante da força de Tarcísio, correram para avisar ao público que fariam de tudo para indultar Bolsonaro, caso se elegessem. Outro que voltou a levantar a cabeça é o governador Ratinho Junior, do Paraná, embora seu discurso seja mais comedido, tanto nas promessas ao bolsonarismo, quanto nas expectativas para 2026. Em rodas de empresários paulistas, o paranaense já disse que “perder do Lula é quase uma vitória, porque meu nome ficaria nacional”. Depois, em 2030, sem Lula nem Bolsonaro na jogada, Ratinho calcula que poderia ser a sua vez.
Feitas as contas, a aparente unidade da direita se quebrou e, entre todos os nomes na berlinda, Tarcísio tem uma peculiaridade que não o ajuda: ele é o mais dependente da boa vontade do ex-
presidente. A avaliação é de Aldo Rebelo, o conselheiro de Bolsonaro que já foi comunista e ministro de Lula e Dilma: “Ao contrário do Caiado, do Ratinho e do Zema, que construíram uma história própria em seus estados, Tarcísio em São Paulo é uma criação de Bolsonaro. Com o apoio de Bolsonaro, é um forte candidato. Sem ele, é inviável.” Sua opinião não mudou com o tarifaço.
Não se sabe o que o governador Tarcísio de Freitas sentiu às 17h17 do dia 9 de julho, quando Trump postou na sua rede, a Truth Social, o aviso do tarifaço. Mas, considerando-se sua primeira reação pública, é fácil concluir que Tarcísio não entendeu nada – e, portanto, não deve ter pressentido que a muralha de certezas do Centrão que o cercava até então estava começando a ruir. E eram muitas certezas. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) era um dos mais otimistas em relação às chances eleitorais da direita. Ignorando o fato de que Bolsonaro está inelegível, chegou a garantir ao ex-presidente que tanto ele quanto Michelle derrotariam Lula. Os irmãos Eduardo e Flávio, na avaliação de Ciro Nogueira, também poderiam derrotar o petista, embora não fossem favoritos. E Tarcísio, então, era um tiro tão certo que, provavelmente, Lula até deixaria de concorrer à reeleição, assustado com o apoio massacrante ao rival. Tudo isso porque, para o senador, Tarcísio tem o potencial de Bolsonaro, mas sem sua rejeição.
Gilberto Kassab, o homem do PSD, fazia projeções menos espetaculares, mas ainda positivas. Segundo os trackings que acessava, Lula ganharia de todos os outros, mas ficaria quatro pontos percentuais atrás de Tarcísio. Era pouco, mas o suficiente para que Kassab abandonasse seus instintos anfíbios e encarasse o projeto de lançar Tarcísio. Até o final de 2024, Kassab era peremptório sobre o futuro político do governador: a reeleição. A partir do início deste ano, virou a chave e passou a dizer publicamente que, se Tarcísio concorresse à Presidência, o PSD estaria do seu lado. Era um recado inusitadamente sólido para um partido de gelatina. Na única vez em que conduziu uma operação sem ter um pé em cada canoa, Kassab se deu bem. Desembarcou do governo de Dilma, abraçou o impeachment e embarcou no governo de Temer. Agora, fechado com Tarcísio, Kassab vinha repetindo a mesma estratégia até que Trump apareceu. Resgatando as inclinações anfíbias, Kassab se absteve de entrar na briga retórica do tarifaço. E as canoas voltaram para onde sempre estiveram, à espera de um pé qualquer.
Antonio Rueda, presidente do União Brasil, partido que detém três ministérios no governo, tem dito que a candidatura que levará o apoio da sigla será “do centro para a direita”. Apoiar Lula, desde já, não é uma opção. Mas ele tampouco se refere a Tarcísio como uma aposta concreta. “O esforço é para que tenha um nome único do centro [é como ele se refere ao Centrão]. O União Brasil tem hoje um pré-candidato, que é o Caiado. Eu vou tentar trabalhar pelo Caiado. Mas isso só vai ser definido no ano que vem. Tarcísio não se anunciou pré-candidato. Desses todos, é o que está melhor, mas não é pré-candidato”.
Enquanto isso, o fato é que Lula voltou ao jogo – pelo menos por enquanto. A mais recente pesquisa da Quaest, pós-
tarifaço, mostra que o presidente ganharia de todos: de Michelle, de Eduardo, de Bolsonaro e do próprio Tarcísio, embora, neste caso, com apenas quatro pontos à frente, o que fica dentro da margem de erro. O quadro deixa Tarcísio mais uma vez na corda bamba. É improvável que o governador agora comece a se distanciar do padrinho, mas o custo de se associar a ele aumentou. “Hoje, 44% dos eleitores têm medo de Bolsonaro voltar ao poder. E 41% temem a vitória de Lula. A direita está se organizando para ter os benefícios do apoio do Bolsonaro. Mas ninguém está olhando para os problemas associados a isso”, diz Felipe Nunes, sócio do Quaest, referindo-se à alta rejeição.
Na política, a perda de combustível tem efeito dominó. A candidatura presidencial de Tarcísio e a sua sucessão no governo de São Paulo pareciam encaminhadas, mas agora nem isso está garantido. Neste cenário, Tarcísio também se comporta com a dubiedade que lhe é característica. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB, quer concorrer ao governo do estado. Gilberto Kassab, do PSD, também almeja o mesmo cargo. Guilherme Derrite, o acusado de atuar em grupo de extermínio, é outro que articula para se candidatar ao Executivo paulista. Em público, Tarcísio não fala nada. Em privado, diz que Ricardo Nunes não tem estatura para ser governador, que Kassab é “pesado demais” para carregar numa campanha e que o problema de Derrite não é o excesso de sangue, mas o fato de não ser “um bom gestor”. No retrato de hoje, o bolsonarista André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, seria a sua aposta para a sucessão.
No final de maio, o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, reuniu cerca de trinta clientes importantes na sede do seu banco, no Rio de Janeiro, e fez uma declaração sem margem para dúvidas. Estava mais do que na hora de Bolsonaro anunciar Tarcísio como candidato ao Palácio do Planalto para salvar o Brasil. Lula, disse ele, não tinha mais saída. No mês seguinte, em um evento para agentes autônomos em Mendoza, na Argentina, Guilherme Benchimol, da XP Inc., seguiu na mesma linha: era Tarcísio na cabeça e Lula na aposentadoria. Antes disso, no Carnaval passado, até o empresário Luciano Hang, o Véio da Havan, que chegou a perseguir seus funcionários para forçá-los a votar em Bolsonaro, não escondia de seus amigos e interlocutores que estava ao lado de Tarcísio. A parada parecia ganha.
Esse clima de certezas festivas se evaporou, mas Tarcísio continua sendo – de longe – o nome preferido do mercado financeiro, da Faria Lima, do empresariado, das elites industriais, dos banqueiros. E Roberto Campos Neto, que irritou a Faria Lima em razão da negligência com que tratou as denúncias sobre o Banco Master durante sua passagem pelo Banco Central, segue sendo o candidato do coração para ministro da Fazenda em um eventual governo Tarcísio, ainda que esteja recomendando a busca por um outsider.
A boa relação do governador com o empresariado começou ainda no Dnit, nos anos 2010, quando se aproximou da turma do agro. No início, via com ressalvas as relações entre gestores públicos e o setor privado. Com o tempo, habituou-se à nova realidade e passou a fazer parcerias com empreiteiros e produtores rurais, interessados em escoar sua produção por estradas melhores. Nesse período, um de seus principais aliados era o empresário Eraí Maggi, primo do ex-senador Blairo Maggi, um gigante da soja. Num acidente em que seu carro capotou oito vezes, Tarcísio foi socorrido por Eraí. Ficaram amigos, e Eraí acabou sendo fundamental para que Tarcísio virasse ministro de Bolsonaro.
Quando já estava fora do governo Dilma, depôs numa CPI sobre a Funai e o Incra, e teve que responder a dois questionamentos do PT: o privilégio que dava a produtores rurais, em detrimento do bem-estar de comunidades indígenas, e as caronas que pegava em jatinhos de um empresário com negócios no Dnit. Não defendeu, nem negou, a prioridade aos ruralistas, mas disse que, se Lula podia voar de carona com empresários, ele também podia. No governo Temer, ao tocar as parcerias público-privadas, ampliou contatos com o setor de infraestrutura, deixando boa impressão entre os empresários da área e se cacifando para integrar o governo Bolsonaro. “Isso não me surpreendeu”, diz um interlocutor do mercado que o conheceu na época em que Tarcísio dava expediente na Câmara. “Ele de fato colocou de pé o projeto das parcerias. É um cara afável, simpático, explica com paciência. Mas é um malandro. Nunca tinha comentado que era militar. É um carreirista, né? Um sobrevivente em Brasília.” A fonte, note-se, usa “malandro” e “carreirista” como elogio.
Como ministro de Bolsonaro, não atraiu mais atenção porque os contatos com o meio empresarial eram monopolizados pelo chefe da Economia, Paulo Guedes. Por isso, só passou a ser observado no detalhe quando se tornou candidato ao governo de São Paulo – e foi rapidamente assimilado. Antes mesmo de vencer nas urnas, já circulava com naturalidade entre os principais nomes do PIB paulista. Ao assumir, lançou um plano de ajuste fiscal prevendo cortes de gasto de custeio e desonerações de ICMS para empresas – a mesma ideia de Fernando Haddad, mas aplicada aos impostos estaduais.
Em sua gestão, cortou 84 benefícios fiscais e revisou 17, mas, em razão da concessão de novas isenções e estimativas incorretas sobre o desempenho da economia e da inflação, a projeção de gastos acabou subindo quase 20% para o ano que vem. Na prática, seguiu uma política tucana de controle fiscal. Um ex-secretário da Fazenda reclama que o governador costuma fazer o que políticos fazem: colocar-se como autor de todas as coisas boas, quando, na verdade, está seguindo o que foi planejado em governos anteriores. “Parece que quando ele assumiu não tinha nada. Parece que ele começou a fazer o metrô e todo o resto”, diz. “Não há nada de extraordinário no que ele faz, mas a Faria Lima se empolga por causa do antipetismo evidente.” Um empresário paulista que integra a escassa fauna que vota no PT diz que, nos eventos empresariais, Tarcísio é especialista em expor pilhas de estatísticas que ninguém entende direito. “Mas como ele fala tudo o que o mercado quer, tratam ele como rei, né? Isso é bom para o Brasil. Não acho ruim, não. Mas governar não é só isso.”
Nos eventos com empresários, Tarcísio nunca é questionado sobre políticas sociais, a matança policial que beira o descontrole, os assaltos crescentes. O analista político Lucas de Aragão, da consultoria Arko Advice, cuja clientela inclui empresas e fundos nacionais e estrangeiros, atribuiu o comportamento ao “pragmatismo dos agentes econômicos”. Diz ele: “É um jeito de pensar o Brasil que o mercado enxerga como o mais adequado. Previsibilidade de gastos públicos, privatizações, atração de investimento, proximidade com o mercado. Como existe um cansaço, uma falta de esperança e uma visão negativa sobre o governo atual, o andar de cima da economia naturalmente vê o Tarcísio como o candidato ideal. Até porque eles não se sentem confortáveis com a retórica do Bolsonaro e de sua família.”
A vassalagem que Tarcísio tem prestado a Bolsonaro, inclusive ecoando seu discurso, realmente machuca as coroas do PIB, mas nada que um Melhoral não resolva. Os modelos matemáticos que o mercado tem rodado – à semelhança do que faz Campos Neto – ajudam a manter o empresariado ao lado do governador. Segundo os dados que circulam nas mesas de operação, Lula tinha, em março passado, 44% de probabilidade de se reeleger. Em junho, caiu para 41%. Agora em julho, depois do estouro do tarifaço, oscilou para cima e chegou a 43%. Para o mercado, trata-se de uma variação muito pequena diante de tanto barulho. E ninguém ali tem muito interesse em saber no que Tarcísio realmente acredita, contanto que suas ideias econômicas continuem no mesmo diapasão.
A piauí procurou o governador para esclarecer algumas de suas opiniões. Como ele não quis dar uma entrevista presencial ou virtual, a revista enviou dez perguntas por escrito. Perguntou se ele acreditava que os participantes do golpe de Oito de Janeiro deveriam ser anistiados e se ele estava determinado a conceder indulto a Bolsonaro caso fosse eleito. A respeito do golpe em si, a revista queria saber se o governador achava que “alternativas constitucionais” ou “estado de sítio e de defesa” eram medidas legítimas para alterar o resultado de uma eleição. Sobre o STF, a piauí perguntou se Tarcísio considerava que a Corte estava sendo injusta com Bolsonaro e se concordava com a afirmação do senador Flávio Bolsonaro de que talvez fosse preciso usar a força contra o tribunal. Por fim, a piauí perguntou sobre arrependimentos: ele se arrependia de ter politizado o tarifaço e de já ter usado do boné do Maga?
Tarcísio não respondeu a nenhuma das perguntas.
Em 21 de julho, ao comparecer a um evento em Bebedouro, região do interior paulista onde se concentram os maiores produtores de suco de laranja do país, Tarcísio voltou a falar. Em seu discurso, insinuou que o governo brasileiro não estava cumprindo seu papel de baixar a temperatura da crise, e não fez menção ao maior causador das tensões – Bolsonaro. Até o fechamento desta edição, Tarcísio não havia feito uma única crítica à conduta de Bolsonaro ou do filho Eduardo. Terminou seu discurso em Bebedouro afirmando o seguinte: “Quem fala em nome do Brasil tem que ter essa compreensão, tem que trabalhar para distensionar as relações, tem que trabalhar para pacificar […], entender que o Brasil não ganha nada ao se alinhar a determinados blocos em detrimentos de outros.” Foi aplaudido. Ninguém lhe perguntou se quem apoia o Maga, com boné e tudo, tem essa compreensão.
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Contra o imperialismo e seus aliados
# Trump recua, mas Brasil continua sob ataque. Maria Luiza Galvão (GGN via IHU)
# Como o tarifaço de Trump contra o Brasil pode sair pela culatra. Thomas Mils (DW)
# A economia global prende a respiração e guerra de Trump avança. Iker Seisdedos (IHU)
# Apesar dos ataques midiáticos, tensão blindou setores. Patrícia Faerman (GGB)
# Como chegamos até aqui. Aliança Trump-Bolsonaro pavimentou o tarifaço. Alice Maciel (Pública)
# Sabe o que tem 'tarifa zero'? Cortar o mal pela raiz. Hugo Souza (Come Ananás)
# O Brasil sob embargo. Sem ter aberto de qualquer janela de negociação, Trump... Luis Felipe Miguel (Substack)
# Cúpula do Congresso está de 'saco cheio' dos Bolsonaro. Josias de Souza (Uol)
# Trump percebeu que Magnitsky não faria Brasil ceder. Entrevista com Hussein Kalout (Uol)
# The Economist: Sanção de Trump a Moraes pode ser um tiro no pé (via Uol)
O cachorro louco veio para ficar
Fernando Barros e Silva, piauí (acesse)
Agosto, dizem, é o mês do cachorro louco, mas este ano os cães da extrema direita resolveram antecipar o calendário. É verdade que Donald Trump não escolhe data para espumar. A raiva, no caso dele, é um modo de vida. Sua cólera funciona em moto contínuo contra tudo o que possa parecer civilizado. No mês que passou, ela se manifestou na direção do Brasil. Trataremos aqui dos aspectos políticos de sua investida, começando por uma rápida recapitulação dos fatos.
1_No dia 9 de julho, Trump anunciou que os produtos brasileiros seriam taxados em 50% a partir de 1° de agosto. E justificou a medida com um ataque inaudito à soberania do país. Primeiro, alegou que o julgamento de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal era uma caça às bruxas e que deveria cessar IMEDIATAMENTE, com maiúsculas. A seguir, na mesma carta que endereçou a Lula e divulgou pelas redes sociais, disse que o STF estava patrocinando atos SECRETOS e ILEGAIS, também com maiúsculas, contra as big techs dos Estados Unidos. Só depois de se imiscuir na política brasileira e torcer os fatos conforme suas conveniências, numa mistura de soberba, truculência e delírio, Trump decidiu invocar as razões comerciais de sua decisão. E o fez para mentir, dizendo que o Brasil impunha “déficits insustentáveis” aos Estados Unidos. Como todos sabem, ocorre exatamente o contrário: os Estados Unidos são historicamente superavitários nas transações entre os dois países.
2_Pesquisas de opinião realizadas nos dias seguintes ao tarifaço registraram a melhora dos índices de aprovação a Lula e a rejeição da maioria da população às medidas de Trump. O governo aproveitou a maré e espalhou pelas redes sociais o slogan “Lula quer taxar os super-ricos, Bolsonaro quer taxar o Brasil.”
3_No dia 15 de julho, radicalizando sua ofensiva, o governo americano anunciou ter aberto investigação sobre o que chamou de práticas comerciais “desleais” do Brasil. Entre elas, o uso do Pix, que compromete o rendimento das bandeiras de cartão de crédito americanas e os sistemas de pagamento das big techs.
4_Dois dias depois, em 17 de julho, Lula convocou a rede nacional de rádio e tevê para rebater Trump. Falou por quase 5 minutos, rechaçou a interferência estrangeira em assuntos internos e, sem citar nomes, chamou de “verdadeiros traidores da pátria” os políticos locais que apoiavam a cruzada trumpista.
5_No dia seguinte, 18 de julho, Alexandre de Moraes impôs medidas cautelares contra Bolsonaro, acusando-o, junto com o filho Eduardo, de atentar contra a soberania nacional para interferir no curso do processo judicial de que é réu. O ex-presidente passou a usar tornozeleira eletrônica, ficou proibido de acessar as redes sociais e de sair de casa à noite e nos fins de semana, entre outras restrições. Bolsonaro e Eduardo – que está nos Estados Unidos desde março, conspirando contra a democracia brasileira – também ficaram proibidos de conversar.
6_Nesse mesmo dia em que Bolsonaro virou um “tornozelerer eletrônico”, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou que estavam suspensos os vistos de Moraes e de outros sete ministros do STF. Dali em diante, até ordem em contrário, na Corte brasileira, só Luiz Fux, André Mendonça e Kassio Nunes Marques continuam autorizados a passear na Disney.
7_No dia 21, a Primeira Turma do STF ratificou, por 4 votos a 1, as medidas cautelares de Moraes. O voto divergente foi de Fux, o neobrother do bolsonarismo.
8_Bolsonaro foi ao Congresso no dia seguinte e discursou rapidamente diante de jornalistas, exibindo a canela com o adereço eletrônico, que chamou de “suprema humilhação”. Moraes ameaçou prendê-lo e intimou seus advogados a prestar esclarecimentos. O ministro ouviu os argumentos da defesa e se manifestou dias depois: o ex-presidente descumpriu, sim, a medida cautelar, mas cometeu uma “irregularidade isolada” e, por isso, não cabe sua prisão preventiva. Por enquanto.
A gressão de Trump ao Brasil não é um ato isolado. Ela integra os esforços para articular a extrema direita ao redor do mundo, sob a influência dos Estados Unidos. É o que diz, entre outros, o cientista político Jan-Werner Müller, professor da Universidade Princeton, em artigo recente intitulado Trump está tentando construir uma Internacional de extrema direita, republicado no Brasil pelo jornal Valor Econômico, com título levemente alterado (Trump e a aliança global de extrema direita). Falando em nome da “liberdade de expressão”, que é por ele instrumentalizada, Trump age para atender aos interesses poderosos das empresas de tecnologia que não querem ser reguladas por governos de outros países, a exemplo do que ocorre no Brasil e na União Europeia.
Em fevereiro deste ano, lembra Werner Müller, o vice de Trump, J. D. Vance, repreendeu as iniciativas dos europeus no sentido de proibir o discurso do ódio e regular a esfera digital, acusando-os de desrespeitar a “liberdade de expressão”. Em relação ao Brasil, o governo americano foi mais longe.
Não deixa de ser um choque de realidade. O cachorro louco (embora Trump pareça mais um porco gordo com voz pastosa) veio para ficar. O último mês deu o tom do que virá pela frente. Os Estados Unidos já entraram em campo para interferir no processo político brasileiro e a sucessão presidencial definirá, sim, os rumos (e, no limite, a possibilidade de existência) da nossa democracia. É isso o que está em jogo.
No meio de muitas dúvidas, há algumas certezas. Eduardo Bolsonaro é carta fora do baralho para 2026. Se, ao viajar para os Estados Unidos, tinha alguma pretensão de ser indicado pelo pai como candidato à Presidência (e tinha), o deputado fujão em vias de perder o mandato hoje parece condenado a apostar as suas fichas numa improvável ruptura institucional. Zero Três esfarelou como opção de poder. Morreu pela boca. Sua imagem está indelevelmente associada à traição dos interesses nacionais em nome de benefícios familiares. Se for esperto, ele fica nos Estados Unidos, onde vai poder andar na rua e trocar inclusive de nome: Bananinha é o #$%%&*, meu nome agora é Zero Three.
Trump pegou os patriotas de surpresa e muita gente não sabia onde enfiar o boné do Maga. Foi o caso de Tarcísio de Freitas. Depois de embarcar na pregação bolsonarista de primeira hora, que atribuiu a responsabilidade pelo tarifaço exclusivamente a Lula, poupando o presidente americano de qualquer peteleco – e depois de apanhar dos representantes do PIB nacional por isso –, Tarcísio recalibrou seu discurso, tentando se equilibrar entre a lealdade ao chefe e as urgências concretas da turma do dinheiro (leia reportagem sobre o governador na página 16).
Na mesma linha, Romeu Zema chegou a declarar que “a gente não briga com cliente” e “a gente procura fazer aquilo que é o melhor para o cliente”. O governador de Minas não costuma usar boné. Mas, se lhe fizessem um exame de ressonância magnética no crânio, é provável que encontrassem a sigla Maga gravada em seu lobo frontal. Zema também apanhou do empresariado e teve que retocar a maquiagem de sua retórica.
Depois do baque inicial, tudo indica que a direita vai se reorganizar e será competitiva em 2026. Há interesses financeiros, base social e agenda política conspirando para isso (mais até do que a economia, a violência neste momento ocupa o topo das preocupações da população). E a direita vai se reorganizar compondo com o bolsonarismo e rendendo homenagens a Bolsonaro, e não rompendo com ele. Tarcísio deixou de ser a barbada da Faria Lima, mas segue vivo no jogo.
Quem, no entanto, no campo conservador, mais se beneficiou desse imbróglio até agora foi Michelle Bolsonaro. No momento em que o clã entrou em parafuso, quando a tal “narrativa” lhes fugiu de controle e tivemos a impressão de que falavam em línguas – cada um na sua –, a figura de Michelle, pouco ouvida pela “macholândia”, se impôs como contraponto. Ela, que é iniciada na glossolalia, mas de quem nada se esperava que dissesse sobre a tarifália, acabou se beneficiando da balbúrdia sem fazer esforço. Dificilmente será candidata à sucessão de Lula. Mas, por ora, desponta como a vice dos sonhos dos marmanjos.
Bolsonaro é o 'boi de piranha' de Trump
Tarifaço repete a lógica imperial da Guerra Fria: EUA querem enfraquecer os Brics e o nosso poder contra as big techs.
comportamento
Pensadora feminista mergulha nas subculturas como incel e redpill. Como extrema direita politiza frustrações pessoais. Os impactos no mundo offline e a monetização do antifeminismo. E os caminhos para repensar modelos de masculinidade
# Nuria Alabao, Outras Palavras
# Eduardo Bolsonaro: "atuo para que não haja diálogo com a Casa Branca" (Estadão, via Uol)
# Terras raras: na última hora bolsorista enfiou mineração no PL da devastação. Hugo Souza (Come Ananás)
# Tarifa imposta por Trump ao Brasil é o dobro da tarifa global. Isabela Bolzani (G1)
# Levantamento nas mãos de Lula rebate acusações de Trump. André Borges (Folha)
Indigência política e ideológica é o que explica as motivações do cidadão da foto
Por Joseph E. Stiglitz
Ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-presidente do Conselho
de Assessores Econômicos da presidência dos EUA, é professor na Universidade Columbia e Prêmio Nobel de economia)
Por décadas, os Estados Unidos foram o campeão da democracia, do Estado de Direito e dos
diretos humanos. Sem dúvida, entre a retórica e a realidade, houve discrepâncias gritantes:
durante a Guerra Fria, em nome do combate ao comunismo, os EUA derrubaram governos
eleitos democraticamente na Grécia, Irã, Chile e em outros países. Em casa, os EUA estiveram
em uma batalha para garantir os direitos civis dos negros, um século após o fim da escravidão.
Mais recentemente, a Suprema Corte dos EUA tem atuado de forma contundente para restringir os esforços voltados a reparar os legados negativos do longo histórico de discriminação racial.
Ainda assim, embora os EUA muitas vezes não praticassem o que pregavam, agora não fazem nem uma coisa nem outra. O presidente Donald Trump e o Partido Republicano trataram de garantir isso.
Em seu primeiro mandato, o desprezo de Trump pelo Estado de Direito culminou em sua tentativa de subverter o princípio mais fundamental da democracia: a transição pacífica de poder. Ele sustentou - e ainda insiste em sustentar - que venceu a eleição de 2020, apesar de Joe Biden ter recebido cerca de 7 milhões de votos a mais e de dezenas de tribunais terem determinado que não houve irregularidades significativas no processo eleitoral. Para qualquer um que conheça Trump, isso não deve ter sido surpresa; a grande surpresa foi cerca de 70% dos republicanos terem acreditado que a eleição foi manipulada. Muitos americanos - incluindo a maioria de um dos dois principais partidos - entraram na toca do coelho da desinformação e das teorias da conspiração absurdas. Para muitos apoiadores de Trump, a democracia e o Estado de Direito são menos importantes do que preservar o “modo de vida americano”, o que na prática significa assegurar a dominação pelos homens brancos, à custa de todos os demais.
Para o bem e para o mal, os EUA há muito tempo servem de modelo a ser seguido pelos demais. E, infelizmente, há demagogos em várias partes do mundo mais do que dispostos a adaptar a fórmula de Trump de pisotear as instituições democráticas e repudiar os valores que as sustentam.
Um exemplo notório é o do ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro, que chegou a tentar imitar o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Congresso dos EUA, com o objetivo de impedir a posse de Biden. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, foi maior do que a invasão do Congresso, mas as instituições brasileiras se mantiveram firmes - e agora exigem que Bolsonaro seja responsabilizado.
Por sua vez, os EUA têm seguido a direção oposta desde o retorno de Trump à Casa Branca em janeiro. Mais uma vez, Trump deixou claro que adora tarifas alfandegárias e abomina o Estado de Direito - chegando até a violar o acordo comercial assinado com México e Canadá em seu primeiro mandato. Agora, ignorando a Constituição dos EUA, que atribui exclusivamente ao Congresso o poder de impor tributos (e tarifas não são nada mais do que uma forma particular de imposto sobre bens e serviços importados), ele ameaçou impor uma tarifa de 50% ao Brasil, a menos que o país interrompa o processo judicial contra Bolsonaro. Eis aqui, portanto, Trump infringindo o Estado de Direito ao exigir que o Brasil, que tem cumprido todos os limites do devido processo legal no julgamento de Bolsonaro, também o infrinja. O Congresso dos EUA jamais aprovou tarifas como instrumento para forçar países a obedecer a ordens políticas de um presidente, e Trump não conseguiu citar nenhuma lei que lhe desse sequer uma mínima fachada para suas ações inconstitucionais.
O que o Brasil faz contrasta de forma gritante com o que ocorreu nos EUA. Nos EUA, o processo legal avançava de forma lenta, mas criteriosa, para responsabilizar os envolvidos na insurreição de 6 de janeiro, mas Trump, imediatamente após sua segunda posse, usou o poder de indulto presidencial para perdoar todos os que haviam sido devidamente condenados – até os mais violentos. A cumplicidade em um ataque que deixou cinco mortos e mais de cem policiais feridos deixou de ser crime.
Assim como a China, o Brasil se recusa a ceder à intimidação americana. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a ameaça de Trump como uma “chantagem inaceitável” e acrescentou que “não é um gringo que vai dar ordens a este presidente”. Lula está defendendo a soberania de seu país, não apenas no domínio do comércio exterior, mas também ao regular as plataformas tecnológicas controladas pelos EUA. Os oligarcas datecnologia americana usam seu dinheiro e influência mundial para tentar forçar países a dar-lhes rédea livre em busca de lucros, o que inevitavelmente causa enormes danos, inclusive ao servir como canal de desinformação, seja intencional ou não intencional.
Assim como ocorreu nas recentes eleições no Canadá e na Austrália, Lula ganhou um “impulso graças a Trump” no apoio nacional, uma vez que os brasileiros reagiram contra o governo americano e se arregimentaram em torno a ele. No entanto, essa não foi a motivação de Lula
para adotar tal postura. A motivação foi a crença genuína no direito do Brasil de definir suaspróprias políticas, sem interferência externa.
Sob a liderança de Lula, o Brasil optou por reafirmar seu compromisso com o Estado de Direito e a democracia, mesmo enquanto os EUA parecem estar renunciando à própria Constituição. Devemos ter a esperança de que outros líderes, de países grandes e pequenos, demonstrm em bravura semelhante diante da intimidação do país mais poderoso do mundo. Trump minou a democracia e o Estado de Direito nos EUA - talvez de forma irreversível. Não se pode permitir que faça o mesmo em outros lugares.
(Tradução de Sabino Ahumada)
Copyright: Project Syndicate, 2025.
www.project-syndicate.org
29/07/2025
Brasil virou pedra no sapato de Trump na América do Sul
Em entrevista, cientista político Christian Lynch avalia que tarifaço mira aspirações de autonomia do Brasil e que a Trump só interessam governos submissos. "O tarifaço é o começo de um processo sistemático de agressão."
A memória ruim de Tarcísio Calabresa
# Genocídio em Gaza: número de mortes ultrapassa 70 mil. Thabita Ramalho (Opera Mundi)
# ONGs de Israel denunciam que país comete genocídio em Gaza (Opera Mundi)
comportamento
Plataformização e mídias sociais são construídas para dar visibilidade a tópicos que geram raiva, ansiedade e medo e têm transformado o comportamento social dos jovens, diz Ricardo Severo em entrevista ao IHU (leia aqui)
Este é o menor dos problemas
Pesquisadores do MIT Media Lab publicaram um estudo que usa eletroencefalografia (EEG) para medir a atividade cerebral durante tarefas de escrita. A conclusão é de que quem usa ChatGPT apresenta conectividade neural dramaticamente reduzida — apenas 42 conexões na banda alfa do cérebro, comparado com 79 conexões em quem escreve sem ajuda. Calma que piora: 83% dos usuários de IA não conseguiram citar trechos dos próprios textos minutos após escrevê-los, contra apenas 11% no grupo que trabalhou sem assistência.
Leia mais: # Crisdias (Boa Noite Internet)
Tarcísio, Caiado e Ratinho Junior disputam a vergonha de ser poste de Jair Bolsonaro na eleição presidencial do ano que vem, isto a que a mídia corporativa chama candidato de “terceira via”. # Hugo Souza, Substack
Ao colocar a lealdade familiar acima de suas obrigações como deputado federal, Eduardo trai o mandato que deveria ser cassado.
# Helio Schwartsman, Folha
# Em documento político, PT endurece críticas a Trump e aos Bolsonaro. Fabio Zanini, Folha
# O plano de contingência que Haddad apresentou a Lula (Carta Capital)
# Poderão os países tributar os super-ricos? (Outras Palavras)
Pressões sociais desafiam um grande tabu do neoliberalismo. Os impostos sobre a riqueza voltam a ser considerados, depois de demonizados por décadas. Em Paris, uma escola até há pouco ignorada assumiu a liderança acadêmica deste combate
O resultado reflete a média trienal dos anos de 2022, 2023 e 2024, que colocou o país abaixo do patamar de 2,5% da população em risco de desnutrição ou de falta de acesso à alimentação suficiente.
Estar no Mapa da Fome significa que uma parcela significativa da população do país vive fome crônica (continue a leitura no DW)o
O apoio militar e diplomático de Washington, motivado por razões geopolíticas e de política interna, é a principal causa de um bloqueio para o qual contribuem a disfunção da ONU, a divisão europeia e a repressão aos protestos dos cidadãos.
A reportagem é de Andrea Rizzi, publicada por El País
Por onde Tarcísio anda...
# Trump é uma vacina contra o viralatismo brasileiro. Leonardo Stoppa (247)
# O que fazer da guerra de Trump e dos Bolsonaro contra o Brasil. Vinicius T. Freire (Folha)
# Eduardo Bolsonaro diz que não volta e quer Moraes preso. Thaís Bilenky (Uol)
# Milícia bolsonarista lutará pelos EUA. Celso Rocha de Barros (Folha)
Frei Betto
A guerra é como Jano, tem várias faces. Além de bélica, ocorre também por vias diplomática, econômica, política e cultural. A cultural consiste em impor a versão do dominador sobre os dominados. É o que sempre fizeram as indústrias de entretenimento da Disney e de Hollywood
Agora Trump declara guerra econômica ao Brasil ao prometer que, a partir de 1º de agosto, imporá tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros importados pelos EUA, caso o processo contra Bolsonaro, que ele considera uma “witch hunt” - perseguição política -, não seja imediatamente arquivado (continue a leitura).
# Brasil anuncia entrada em ação global contra Israel por genocídio (Folha) # Palestinos tentam resistir à fome e à sede (IHU) # População saqueia caminhões de comida (Uol) # Gaza tem pressa (Substack)
Parte III: A Guerra e a fé (José Henrique Bortolucci).
# acompanhe a série da piauí
# Terras raras: a nova fronteira da guerra contra o imperialismo (clipping do site)
Um dos mais importantes jornalistas brasileiros hoje, Jamil Chade, informa que agentes da Abin suspeitam da verdadeira origem, da real natureza da conjuração antipatriótica de Eduardo Bolsonaro nos EUA: em vez de nascida do bolsonarismo, ela pode ser fruto de uma decisão tomada pelo governo Donald Trump de desestabilizar o Brasil, com a CIA, com tudo, pela “liberdade”, contra a “tirania”
# Clipping: Trump versus Brasil
# Gustavo Zeitel (Folha) # Rodrigo Chagas (Opera Mundi) # A íntegra da carta divulgada no evento (247)
# Quem é Mário Fernandes (Carta Capital)
General confessa ter planejado assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes
# Estratégia suicida (Uol) # PGR é contra a soltura de Fernandes (Carta Capital)
Gaza: extinção total dos palestinos é o objetivo de Israel
# Em Gaza, Israel constrói seu Auschwitz (Outras Palavras) # Genocídio sem precedentes (BBC) # Brasil deixa aliança em memória do holocausto (Folha) # Israel ajuda Trump a ferir a soberania brasileira (Substack) # Israel extermina, Trump e Otan abençoam (A Terra é redonda)
Como a ditadura tentou cooptar a MPB
Censura à criação musical foi dramática. Mas, em paralelo, regime quis modernizar indústria fonográfica com farto incentivo fiscal. Isso permitiu às gravadoras sofisticar sua produção, inclusive com músicos críticos. Mas houve um preço.
Não é nós contra eles. É concentração extrema de renda
Dados para ajudar a cobertura do Jornal Nacional sobre o Brasil e o Congresso Brasileiro
# Sobre liberdade de expressão, Fux teve posições divergentes para Lula e Bolsonaro. Fábio Zanini (Folha)
# Fux descola de Moraes e cria expectativa favorável a Bolsonaro no STF. Ana Pompeu e Cezar Feitoza (Folha)
# Olha quem tirou a máscara de vez. Hugo Souza (Come Ananás)
# Há motivos para decretar a prisão preventiva de Bolsonaro. Reinaldo Azevedo (Uol)
# Possibilidade de asilo político para Bolsonaro ainda existe, mas é cada vez menor
(João Paulo Charleaux, Carta Capital)
# Bolsonaro já não dirige a direita
(Josias de Souza, Uol)
Investimento milionário de Tarcísio e Feder em plataformas não melhorou o aprendizado, aponta estudo. Pesquisadores questionam eficácia pedagógica e alertam para vigilância sobre professores e diretores; governo estadual anunciou investimento de quase 500 milhões...
# Ana Luísa Basílio (Carta Capital)
Nobel da Economia explica: sistema brasileiro é rápido, seguro e gratuito – por isso, tornou-se popular. Seus “problemas”: ele quebra o mito do Estado “ineficiente”, ameaça lucros financeiros parasitários e pode tornar obsoletos os bancos privados
O comentariado é a nova assembleia pública — um parlamento digital onde se debate com memes, se vota com emojis e se julga em caixas de texto. Se antes a opinião era privilégio de poucos, hoje é tsunami de muitos. Ivana Bentes, A Terra é redonda (acesse)
Estamos diante de uma nova força de comunicação e sociabilidade: o comentariado – uma multidão volátil que se aglutina em torno de conteúdos digitais, postagens opinativas e eventos informacionais, criando consensos, descensos e controvérsias.
O comentariado não é afinal a real força das redes e plataformas digitais? O que lhe empresta valor, o que engaja e monetiza, capaz de formar “zonas autônomas temporárias” que são capturadas pelas plataformas, mas também fogem do controle?
Quanto mais comentários e reação, mais uma notícia se difunde e “engaja” dando visibilidade aquela pauta e a colocando em um topo ou ranking. Comentar de forma admirada, pejorativa, argumentativa, afetiva, de forma positiva ou negativa, produz valor, real e simbólico.
O enxame digital
No caso brasileiro, o comportamento de enxame digital ganha contornos particularmente originais, misturando indignação performática, senso de justiça instantâneo, uma autoestima geopolítica de emergência com poder catártico e predador, um “soft power” tropical,[i] que se manifesta nos comentários.
Temos testemunhado, com frequência crescente, o surgimento desse enxame conduzido por perfis anônimos de brasileiros com arrobas, bandeirinhas e opiniões prontas – e que fazem das redes sociais um verdadeiro Maracanã afetivo, com logica de torcida, rivalidades e mil tons de uma sociabilidade que sempre cultivamos fora das redes. O brasileiro e a cultura brasileira são marcados pelo interesse pela vida alheia e pelo outro: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago” (Oswald de Andrade, 1928),
O comentariado é um personagem coletivo que emerge e cresce nas crises, nos linchamentos morais, nas polarizações políticas, nas tragédias humanitárias ou turísticas, nas polêmicas culturais – estamos prontos para opinar em nome da nação com base em memes, indignações e emojis.
Tarifaço, vampetaço, memes, inteligência artificial e Brics
Tomemos como exemplo recente a reação do nosso enxame digital à ameaça de tarifa de 50% feita pelo presidente Donald Trump sobre os produtos brasileiros exportados para os EUA. A reação emocional e política esteve à altura da chantagem política. Uma ameaça econômica radical caso o Brasil não “anistie” o ex-presidente Jair Bolsonaro que responde a processo por tentativa de golpe de estado.
A medida chantagista e eminentemente política, articulada pela família de Bolsonaro, gerou uma reação fulminante: milhares de brasileiros tomaram as redes sociais e invadiram os comentários dos perfis de Donald Trump com frases que mesclavam nacionalismo pop e uma indignação performada, ora bem-humorada, ora agressiva.
O tarifaço de Trump virou um “vampetaço”, ou seja o compartilhando de memes, imagens criadas por Inteligência artificial e bandeiras do BRICS unidos nos comentários do perfil de Donald Trump, levando ao bloqueio das respostas.
Esse “vampetaço” é caracterizado por expressões brasileiras cômicas e irreverentes – uma verdadeira tropa de choque emocional, invadindo posts com sátiras, memes visuais do ex-jogador Vampeta nu e referências nacionais. O termo “vampetaço” já circulava como conceito de trolling coletivo, mas o caso tarifário foi seu uso mais recente e viral. O termo não só dialoga com a cultura de zoeira digital, mas assume função simbólica de resistência performática e tipicamente brasileira.
As postagens nas redes vão do nacionalismo a zoeira, da campanha #respeitaoBrasil; “deixe o Brasil em paz!”; #brasilsoberano até: “o Trump descobrindo que Deus é brasileiro”; “o Trump ameaçando o Alexandre de Moraes como se um homem careca fosse ter medo”; “Se botar imposto no nosso aço, a gente cancela vocês igual fizemos com o Porta dos Fundos”, ou “Isso é inveja do nosso pré-sal e da coxinha do Brasil” circularam em threads com centenas de curtidas.
O episódio reafirma o curioso fenômeno de engajamento modulável: enquanto o governo ensaiava um discurso e resposta ao mesmo tempo técnico, no campo da economia e político, no campo da soberania, e a oposição preferia culpar o presidente da república, Luís Inácio Lula da Silva, o verdadeiro barulho veio de baixo, das caixas de comentário, onde o algoritmo premia volume e engajamento.
A extrema direita brasileira, e a política engessada na lógica da polarização, perdeu o timing do engajamento: preferiu atacar Lula em vez de se opor à taxação em si. Mais do que isso, o clã Bolsonaro foi o articulador do tarifaço, em explícito movimento de lesa-pátria que virou comunicação memética.
Já o governo recorreu a defesa da soberania, com uma comunicação popular que surtiu efeito nas redes e na disputa narrativa. Mas quem realmente articulou uma resposta popular foi o comentariado. O teclado virou barricada digital. Esse engajamento em tempo real surpreendeu até a extrema-direita, que tem ocupado os algoritmos com impulsionamentos, bots e “cidadãos robôs”.
Nacionalismo líquido
Mas o movimento contra o tarifaço é uma expressão de ativistas organizados? Uma sinergia entre a comoção popular e a comunicação do governo Lula e o ativismo progressista deu “match”. Mas é importante observar e analisar essa fluidez que faz com que os mesmos indivíduos que torcem o nariz para políticas públicas progressistas advogarem causas coletivas quando o “interesse da nação” está em jogo.
Assim, a extrema direita, acostumada a impor narrativas por meio de bots e influenciadores, foi surpreendida porum nacionalismo líquido: apoiadores e não apoiadores do governo, um grande contingente de brasileiros se uniu para defender o país contra as tarifas de Donald Trump.
Figuras como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, depois de colocar na cabeça o boné pró EUA, mudaram o tom e passaram a adotar uma retórica mais patriótica, pressionados pelo enxame de comentários que não estavam dispostos a aceitar insultos à pátria, prejuízos econômicos para o país— mesmo quando vindos de aliados ideológicos.
Eis a ironia: o nacionalismo de rede independe de governo? O que se defende é o Brasil-meme, o Brasil-conceito, o Brasil dos comentários “com orgulho de ser BR”.
Mas se essa reação emocional nos feeds e posts é simpática à primeira vista, seus efeitos colaterais são evidentes: a mesma mobilização digital que protesta contra taxações pode, com a mesma intensidade, se transformar em tribunal inquisitorial. A atriz trans, Karla Sofía Gascón, indicada ao lado de Fernanda Torres para o Oscar sofreu uma campanha de ataques transfóbicos violentos nas redes. Um linchamento moral travestido de crítica cultural, em que os comentaristas se sentiam autorizados a decidir quem pode ou não ser premiada na disputa do Oscar 2025.
Diante de uma crítica negativa ao filme Ainda estou aqui no jornal Le Monde, os comentários dos brasileiros foram furiosos, mas também debochados e engraçados: “Pão de queijo é melhor que croissant” e outros impropérios mais pesados. A campanha pelo filme no Oscar 2025 teve clima e engajamento de Copa do Mundo, algo inédito em se tratando de um produto cultural brasileiro, e um filme evocando os efeitos subjetivos, afetivos e políticos da ditadura militar no país.
Outro caso revelador ocorreu com a morte da brasileira Juliana Marins, que, em julho de 2025, caiu durante uma trilha no Monte Rinjani, na Indonésia e morreu tendo grande demora e dificuldade em ser resgatada. A comoção pela tragédia — uma jovem mulher, viajando sozinha, num país distante — rapidamente se converteu em linchamento digital: milhares de comentários foram direcionados a perfis institucionais do governo indonésio, páginas de turismo e guias locais, exigindo justiça, responsabilizando as autoridades e até impropérios contra a geografia do lugar.
Comentários como “Nunca mais piso nesse país” ou “Culpa é da Indonésia, não da Juliana” inundaram as postagens, revelando uma forma de projeção emocional difusa, que transforma a dor em ataque, e o luto em julgamento público sem mediação.
Emoção coletiva modulada por algoritmos
Esses episódios exemplificam o que podemos chamar de enxameamento afetivo-opinativo: reações coletivas amplificadas por redes, em que o desejo de expressão individual se funde a uma emoção coletiva modulada por algoritmos.
Nos embates políticos como o do tarifaço, trata-se menos de posicionamento ideológico definido do que de resposta imediata à quebra de expectativa, ao deslocamento simbólico, ao incômodo que não encontra lugar na gramática pública tradicional.
O engajamento do comentariado não busca solução, busca visibilidade, efeito e validação performática. A reação passa a ser um fim em si mesma. Esses episódios mostram o quanto a esfera pública digital se tornou também uma arena de reações emocionais desproporcionais, que oscilam entre o desejo de justiça e o impulso punitivista, entre o afeto nacionalista e a intolerância persecutória.
O comportamento de enxame expressa tanto uma inteligência coletiva emergente quanto uma lógica predatória, em que a defesa da nação pode, paradoxalmente, andar de mãos dadas com a produção de ódio, desinformação e linchamento moral.
Esse tipo de reação não precisa de passaporte, tampouco de credenciais institucionais. Basta um celular, uma conexão estável e o desejo de opinar sobre tudo. Como politizar os afetos?
Espaço público digital
Há aqui um campo fértil de análise: esse comportamento de enxame, ao mesmo tempo reativo e criativo, ofensivo e comunitário, revela as formas contemporâneas de construção de sentido e pertencimento no ambiente digital.
Não há ironia suficiente que dê conta da intensidade com que brasileiros comentam tragédias geológicas e premiações culturais como se estivessem em uma final de Copa do Mundo — mas talvez essa seja justamente a pista: a lógica do futebol, da torcida, do antagonismo, da catarse coletiva, passou a organizar também os afetos políticos e culturais no espaço das redes.
A pergunta que se impõe, portanto, não é se essas reações são “justificáveis”, mas o que elas nos dizem sobre a forma como se estrutura o espaço público digital hoje: como uma arena de disputas simbólicas de alta rotatividade, onde qualquer post pode virar palanque, trincheira ou tribuna — e onde o senso de pertencimento passa pela performance comentada.
Como pensar uma lógica de mediações e regulações, aqui? O que temos é uma ruidocracia em rede, operando em tempo real, guiada por afetos de choque, memes de protesto e uma memória coletiva que vive e morre em alguns caracteres por segundo.
O comentariado brasileiro, com sua mistura de humor e e patriotismo performativo, transformou-se em uma força geopolítica que pode ser espontânea, mas também manipulada por algoritmos e fake news, já que o negócio das redes é justamente o engajamento, pouco importando se para atacar as democracias e a coesão social ou abolir o Estado Democrático de Direito. Como diria um anônimo: “Não sei o que está acontecendo, mas vim aqui defender o Brasil”.
O poder do comentariado na era digital
As interações e conversações na era das redes digitais e plataformas se tornaram tão cotidianas e alteraram de tal modo nossas formas de conversar que, desde 2015, Sherry Turke reivindicava uma restauração da conversa presencial, no seu livro Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age.
Quanto você está presente em uma conversa? As tecnologias digitais e redes sociais, ao abrirem janelas de co-presença (estou aqui, mas estou olhando o WhatsUp, as notificações, meu feed) afetaram nossa capacidade de manter conversas significativas cara a cara, diminuindo o engajamento emocional, afetando nossa empatia e nos “distraindo”.
Ao mesmo tempo, as redes e plataformas digitais abriram um campo de interações e conversações novas em tempo real e em fluxo contínuo, com desconhecidos, em escala massiva.
Sherry Turke argumenta que as conversas presenciais têm o poder de construir conexões mais duradouras, resolver conflitos, que a presença física permite a leitura de expressões faciais, linguagem corporal e tom de voz, elementos que podem ser cruciais para uma comunicação ou interação mais significativas, que crie laços emocionais e vínculos mais fortes.
Acompanhamos nas redes, pessoas que são habitués dos comentários, que disputam opiniões, razões, interagem, se apoiam, se digladiam, fazem humor e fomentam uma prática dialógica, de trocas reais, ou monológica (reafirmação repetida de valores e crenças). A conversação entre muitos produz novas associações, informações e sentidos que “fogem” por todos os lados. Uma inusitada forma de estar juntos, que atravessa os mais diferentes estados emocionais e mentais, como em uma conversa infinita.
Estamos vendo um deslocamento da comunicação de uma função informativa para sua função expressiva nessa conversação de muitos com muitos?
Para além de informar, o comentariado passa a inserir funções derivadas (o humor, o entretenimento, a hiperpolarização), a interação passa a ser comandada pelos desejos e crenças, por caixas de ressonâncias, ou câmaras de eco e “bolhas”[ii] em que as pessoas são expostas principalmente a opiniões semelhantes às suas, reforçando suas crenças e percepções, eliminando o contraditório. A informação circula em loop, como um eco que se repete sem ser questionado.
Essa interação afetiva já vinha se desenhando com a “economia do like”, as curtidas, os emojis, os ranqueamentos e listas de amigos, conhecidos, seguidores, “seguimores” e odiadores, uma franca virada da comunicação para incorporar e monetizar a economia dos afetos e da reação emocional.
O grau de virulência de muitos desses comentários excede muitas vezes o razoável ou a legalidade e violam as regras da convivialidade e (eis a batalha para regular redes e plataformas) poderiam ser suspensos, pausados, bloqueados ou mesmo banidos ou excluídos de um ambiente digital.[iii]
Podemos dizer que o comentariado pode expressar uma “intelectualidade de massa”, uma inteligência coletiva, mas também produzir uma turba e multidão virtual enfurecida e capaz de produzir estragos reais e subjetivos, no seu enxameamento.
Comentando os comentários: fragmentos do discurso afetivo
Fazer e seguir comentários de um, de dez ou de mais de duas mil pessoas em um post nas redes sociais e plataformas tornou-se um hábito ou um “vício” como dizem alguns, que os próprios comentadores contumazes costumam denunciar e celebrar: “só vim para ler os comentários”, “aguardando os comentários”, “pelo nível dos comentários”, “vendo os comentários”, “é cada comentário”, “pela quantidade de comentários”, “não posso comentar porque não tenho advogado”, etc. Um prazer e consciência que passa por essa escrita quase de exorcismo e catarse.
Aqui, destaco esse comentariado afetivo, que habita principalmente os posts que ativam a memória, os afetos e hábitos cotidianos, os pequenos gestos impensados, as expressões do dia a dia. São depoimentos, casos e finas observações sobre irmãos, família, cachorros e gatos, amigos, cerveja, festas, chinelos, cozinha, faculdade, sexo, mães, uma impressionante contribuição milionária, divertida e inusitada de fragmentos de discursos sobre a vida.
Os comentários que envolvem matérias de ter político-partidário, comportamentos, posições políticas tendem a ser bem mais maniqueístas e clichês, com um nível de redundância maior nas argumentações e no tom utilizado.
Foi nesse campo que desde as eleições presidenciais de 2018, com a ascensão de grupos de extrema direita no país passamos também a estudar o chamado comportamento de manada ou de enxameamento, nas ruas e nas redes. Uma noção que faz uma analogia do comportamento humano com o comportamento de animais quando se juntam para se proteger, reagir a uma ameaça ou fugir de um predador.
Entre os humanos essas noções são usados para analisar “decisões” e comportamentos coletivos, a partir de um influenciador, a partir de outros indivíduos ou grupos (mas também a partir do uso massivo de bots ou robôs nas redes, bombardeamento de notícias, etc.). Elementos e agentes que produzem ou fazem emergir uma “tendência” ou uma “opinião pública fabricada” e que podem estar presentes tanto nas decisões voláteis do mercado financeiro, na eclosão de protestos nas ruas, atos e ondas de solidariedade e comoção ou em comportamentos predatórios e extremistas.[iv]
Inteligência de enxame
Mas, para além do enxameamento cooperativo das formigas e abelhas, decisivo para a sobrevivência da colônia, tema abordado por Johnson, a cultura digital deu visibilidade e facilitou também os enxameamentos predatórios, que podem ser encontrados na natureza, em cardumes de peixes, matilhas de lobo, bandos de pássaros de rapina que cooperam para aumentar as chances de sucesso em ataques a suas presas.
No mundo digital, os ataques hackers, os usos de bots maliciosos, os ataques coordenados usando fake news e disparos nos grupos de Whatsapp e Telegram, o uso de algoritmos para “bombardear” grupos , redes, sistemas e pessoas com desinformação e produção de medo, ira e indignação, também tem produzido discursos de ódio, ações violentas e/ou saques e mostrado grande eficácia.
A ciência da computação e a Inteligência Artificial, buscando desenvolver algoritmos e modelos computacionais capazes de resolver problemas complexos, científicos, de saúde, voltados para o bem comum, também tem produzido experimentos pouco éticos com enxameamentos e comportamentos de manada que estamos longe de acessar ou acompanhar de forma transparente ou com poder de barrar ou intervir.
O que traz o debate para todos os desdobramentos políticos, jurídicos e sociais hoje, com o uso da Inteligência Artificial no ChatGpt, nos aplicativos de produção de textos e imagens que podem violar direitos autorais, plataformas e Big Techs lucrando com desinformação, viés de interpretação e tantas outras questões difíceis.
Falar sempre foi um lugar de poder. Opinar, analisar, publicar constitui capital simbólico e real passível inclusive de monetização. O que estamos experimentando é uma mudança, um “declínio” desse intelectual público clássico com a ascensão da cultura digital e do comentariado: da massa que opina, publica, critica, dos intelectuais do Youtube, do Instagram, dos influenciadores e formadores de opinião do Twitter, agora X (BENTES, 2024).[v] Eles já colocam em xeque a reserva de mercado de inteligência, opinião e análise do intelectual clássico, provocando uma redistribuição de capital simbólico.
Como vimos, o comentariado tem produzido comportamento de manada, enxameamentos para o bem e para o mal, linchamentos, cancelamentos, destruição de reputações, desinformação global e fake news, um efeito colateral da cultura digital massiva imprevisível e que de fato não foi previsto pela maioria dos pensadores do digital. Mas produz também outra desordem estrutural que possibilita uma nova partilha do sensível.
Em uma matéria de 2019, da Agência Pública nos damos conta como nos últimos anos, a plataforma do Facebook “acelerou os registros de patentes relacionadas à modulação de reações emocionais dos usuários ”, apresentando conteúdos adicionais para um usuário de redes sociais baseado em uma indicação de tédio”: “A ferramenta permite que uma rede social identifique níveis de tédio – como recarregamento do feed de notícias e baixa interação com publicações – e iniba essa sensação. “A rede social apresenta conteúdos alternativos através do feed de notícias ao usuário com indicativo de tédio para encorajá-lo a interagir com os conteúdos”, explica o texto da patente”.[vi]
O deslizamento e rolagem infinita das telas não é “natural’, mas um resultado do design e interface que nos impulsionam mais e mais, produzindo uma grande dificuldade de se desligar ou largar os aparelhos de celular, um vício, um hábito, um “calo”, uma ‘muleta” emocional. O espaço cada vez mais relevante e massivo para os comentários nas postagens e plataformas está nessa fronteira de um desejo vital de expressão e comunicação e sua gestão e modelagem.
Fato é que a conversação digital aponta para novos povoamentos imprevisíveis que se formam em linhas e linhas desse comentariado engajado, deslizante e mesmo esquizo, como em uma conversa de bar em que se pula de tópico em tópico com uma liberdade e cumplicidade que engaja e envolvem os comentadores e oferece para quem lê um instantâneo dessa emergente ruidocracia, como gosto de nominar a esfera pública digital.[vii]
*Ivana Bentes é professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Autora, entre outros livros, de Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas (Mauad X) [https://amzn.to/4aLr0vH]
Notas
[i] A jornalista Flávia Oliveira comentou sobre esse fenômeno no Estúdio i da Globo News em 11/07/2025
[ii] Algumas referências: SUNSTEIN, Cass R.Republic.com 2.0. Princeton: Princeton University Press, 2007; PARISER, Eli. The filter bubble: what the internet is hiding from you. New York: Penguin Press, 2011.
[iii] O Projeto de Lei (PL 2630/20) propõe regulamentar as redes sociais no Brasil, abordando temas como privacidade, liberdade de expressão e proteção dos usuários, atribuição de responsabilidades às plataformas e a atuação da Anatel (PL 2768/22) para regular o funcionamento e a operação das plataformas digitais no Brasil.
[iv] Em seu livro Cultura da Interface: como o Computador Transforma nossa Maneira de Criar e Comunicar, Steven Johnson já fazia, no início dos anos 2000, uma analogia a partir dos estudos da swarm intelligence, a inteligência de enxame, que estuda o comportamento de abelhas, formigas e pássaros. Johnson apontava como as pessoas estavam usando a tecnologia digital para se reunir, colaborar e agir coletivamente em uma escala global. De lá para cá, tivemos cada vez mais evidências de quanto o enxameamento digital impacta na política, na sociabilidade, no ativismo na cultura.
[v] BENTES. Ivana. Só vim aqui para ler os comentários. In: José Brito; Acácio Jacinto. (Org.). Mídias educativas e Impacto Social. 1ed.Rio de Janeiro: Mórula, 2024, v. , p. 262–276.
[vi] https://apublica.org/2019/07/como-o-facebook-esta-patenteando-as-suas-emocoes/
[vii] Parte desse texto tem como base o tema desenvolvido no ensaio BENTES. Ivana. Só vim aqui para ler os comentários. In: José Brito; Acácio Jacinto. (Org.). Mídias educativas e Impacto Social. 1ed.Rio de Janeiro: Mórula, 2024, v. , p. 262–276.
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